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POLÍTICA

"On Being Conservative" de Michael Oakeshott. (*)

2016-05-24 | Apresentado por Pedro Mexia

Eu pensei um bocadinho sobre o que é que eu poderia falar, que livro seria. Pensámos em várias hipóteses de livros políticos, não políticos. Ocorreu-me falar sobre este ensaio por duas razões, não por eu ser o que não sou - politólogo, filósofo, historiador das ideias e nenhuma dessas coisas sou - mas porque estando já há alguns anos a participar activamente no espaço público, nomeadamente em discussões de várias naturezas mas que têm quase sempre uma componente de discussão política e ideológica e tendo, ainda para mais, sempre assumido essa etiqueta de conservador, por um lado, e por outro lado considerando-me um conservador totalmente estrangeirado, isto é, praticamente toda a minha família materna e paterna é conservadora e eu não estou de acordo com eles em quase nada porque o conservadorismo para eles significa outras coisas, algumas das quais eu respeito, outras discordo. Embora nunca tenha vivido no estrangeiro, faço parte de uma geração cujas leituras são anglo-saxónicas, o que pode ser um pouco paradoxal no sentido de pensarmos que a política é uma actividade localizada e ligada a uma circunstância e que pode parecer um pouco estranho ter ideias inglesas em Portugal. Portugal passou séculos a ter ideias francesas e ninguém se queixou, portanto até desse ponto de vista é uma novidade interessante.

Eu sempre me senti mais à vontade com a expressão "conservador e conservadorismo" do que com consignações como "direita", que eu uso com alguma frequência um bocadinho para descriminalizá-la, descriminar a expressão. É uma amálgama, é um jantar de família onde estão muitos primos de quem não gostamos e evito a palavra. Evito a expressão "direita" em vários países e, nomeadamente em Portugal com as vicissitudes conhecidas, remete muitas vezes, sobretudo para pessoas de outra geração, mas não só, é preciso fazer tantas explicações e notas de rodapé que é muito cansativo porque a palavra ("direita") suscita conotações tão grandes.

Lembro-me uma vez, estava a moderar um debate com a Maria Filomena Mónica e perguntei-lhe "Porque é que diz que é de Esquerda se ninguém de Esquerda acha que é de Esquerda?" e ela diz "Não me importava de dizer Direita, mas para mim direita é o Salazar" e esta frase é muito significativa de uma série de associações que são históricas, algumas são baseadas em factos, outras em preconceitos, outras são baseadas em más vontades que identificam a expressão "Direita". O conservadorismo, apesar de tudo, tem uma tradição filosófica. A razão pela qual eu me sinto à vontade com o conservadorismo é porque filosoficamente é uma espécie de gémeo do cepticismo no qual eu me incluo muito fortemente e crescentemente. No fundo, a escolha do Oakeshott nessa tal família dos conservadores significa uma espécie de defesa daquilo que se poderia chamar um "conservadorismo fraco", por oposição a um "conservadorismo forte". Conservadorismo forte por exemplo seria se pensarem na direita religiosa americana. É um conservadorismo que nasce de uma mundividência, muitíssimo baseado em certezas, muitíssimo baseado num sistema de valores estabelecido sem grandes angústias hamletianas sobre esses valores e sendo que muitos desses valores estão em contra-círculo com o tempo presente. Isso gera uma espécie de hostilidade ao tempo presente que sempre me contrariou no conservadorismo.

Este texto do Michael Oakeshott é um bocadinho o contrário e começa por ser tão forte, para mim, porque faz uma afirmação totalmente contra o senso comum que diz que o conservadorismo defende o presente e não o passado. E porque é que ele diz que o conservadorismo defende o presente? Porque ele tem, justamente, uma relação... o tal conservadorismo fraco é o conservadorismo, e essa palavra aparece muitas vezes, parece uma palavra indigna do ponto de vista filosófico, que é a palavra "familiaridade". Uma palavra que ele usa recorrentemente e ele defende muitas das suas convicções (já lá vou a essa questão da disposição conservadora, não há uma ideologia mas uma disposição), mas a valorização da familiaridade que é aquilo que conhecemos. Não conhecemos só o presente, sobretudo quando já temos uma certa idade, mas o presente é aquilo que conhecemos todos os dias e imediatamente. Certamente que todos os conservadores suspeitam de amanhãs que cantam mas também é importante suspeitar dos "ontens" que cantam porque não há razão especial para a mitificação do passado ser mais produtiva do que a mitificação do futuro com a desvantagem para o passado, em que se pode fazer a prova de que é mitificação, enquanto no futuro são sempre as hipóteses, são sempre aquelas coisas de quando os regimes falham clamorosamente, e que é chamada a hipótese comunista, como se já não tivesse sido testada. É sempre uma hipótese, está sempre em aberto, nunca foi testada em lado nenhum, nunca aconteceu, é sempre um espécie de ideia quase metafísica.

Essa ideia do presente, o Oakeshott define essa tal disposição que diz ele que não é uma ideologia, de onde se pode extrair ideias gerais e princípios gerais, mas que é sobretudo uma forma natural, é uma dimensão psicológica de reacção ao que acontece, sobretudo à mudança. Ele tem uma definição que, eu gosto dela por isso, é a definição menos atraente jamais feita e, supostamente, quem quer atrair alguém para um sistema de valores tenta ser relativamente poético ou profético e tende a apresentar uma mundividência política, por exemplo, como uma ideia de mudança que vem, de certa forma, mudar a vida toda. E o Oakeshott neste texto faz uma definição que é tão modesta e tão de "homem de meia-idade para a frente" que não tem nenhum apoio, e ele diz "ser conservador é definir o familiar ao desconhecido, prefiro o já testado ao que nunca foi cantado, o facto ao mistério, o presente ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica". Isto é o contrário do que se costuma fazer nos actos de comércio que é dizer que o produto é muito melhor do que é. Isto aqui é mostrar um produto, é como se uma pessoa pusesse à venda no e-bay e dissesse "este livro está bastante gasto, é capaz de ter bicho". Eu acho fascinante que alguém proponha uma mundividência tão pouco apelativa. E é tão pouco apelativa quanto ele, no princípio do texto, e sobretudo no final, tem que reconhecer a evidência que esta mundividência não é uma mundividência que um jovem aceite ou compreenda e isto levava-nos para uma ideia bastante curiosa que era definir uma ideologia política, embora ele não se refira a ela como uma ideologia em termos etários, seria qualquer como "esta ideologia não é para novos", para inverter o título "este país não é para velhos", porque ele diz que todas as características da juventude que ele diz que são virtudes, são terríveis na acção política, sobretudo, ele faz um elenco muito grande de aspectos que admira nos jovens: a urgência, a impaciência, características desse género que conduzem a uma certa vitalidade na juventude mas que na política, quanto mais complexas são as sociedades políticas, mais a urgência e a impaciência são um entrave a que se faça alguma coisa politicamente útil.

Eu queria apenas partilhar meia dúzia de notas sobre o texto e depois estarei mais do que receptivo a perguntas ou outras intervenções. Desde logo esta ideia que ele exprime claramente, se há uma parte do ensaio sobretudo no princípio, no princípio e no fim, a parte do meio é a parte mais idiossincrática. Ele começa por dizer algumas coisas que todos os conservadores, todas as famílias, todos primos à mesa podem estar de acordo quando ele fala de uma ideia, que é uma ideia forte de qualquer conservadorismo seja ele de que matiz for, que é a ideia do legado. Aquela ideia de que nós somos uma espécie de, como na corrida de estafetas estamos a passar um testemunho que vem de alguém e estamos a passá-lo a quem vem a seguir e imaginar que a corrida acabou antes de nós, connosco ou na geração seguinte é não ter a noção de que a corrida continua justamente e o nosso papel é relativamente modesto mas absolutamente imprescindível que é passar o testemunho, no sentido literal.

E ele fala também de uma outra questão que também é outra matéria ligeiramente problemática, eu gostava que ele explorasse mais isso no ensaio quando diz que "um conservador, uma pessoa com disposição conservadora está grata por aquilo que tem" mas, ao mesmo tempo diz, "mas isso pressupõe que essa pessoa viva e tenha nascido numa circunstância que lhe permita ter essa gratidão", é aquela pergunta: alguém que viva na extrema pobreza pode ser conservador? Ou que vive numa civilização, em certos países onde a ideia de conservar é absurda porque, pode-se considerar valores mas, conservar modos de vida que já não existem, conservar património que está delapidado, conservar civilizações que estão decadentes, etc., é um trabalho impossível. Mas ele, num certo sentido, embora não o diga desta forma que seria um pouco chauvinista, está a falar para ingleses e para ocidentais e isso é uma limitação mas, também nós, nos últimos anos, temos testado os paradoxos e as dificuldades de supormos, com as melhores intenções, que há valores universais no campo da organização política.

Eu não tenho uma posição firme sobre isso mas cada vez mais duvido que haja essa universalidade. Nunca me esqueço de um dos momentos que abalou mais a minha convicção na universalidade dos valores, é uma coisa um bocadinho anedótica mas já vão perceber que não é totalmente absurda, foi quando o Ayatolla Khomeini estava em França exilado e não queria intervir na política iraniana, até uma certa fase, porque não havia uma tradição de não intervenção, mas ele já estava tentado porque havia muitos sinais de repressão. Mas ele, a repressão não lhe fazia muita confusão, mas um dia mostram-lhe fotografias de mulheres de minissaia em Teerão e ele diz "não, isto não pode ser". A ideia de que uma das revoluções mais importantes da época contemporânea nasceu da intolerância do homem para com minissaias, mostra que a universalidade de valores não é um dado civilizacionalmente adquirido. Isto é menos anedótico do que parece porque há recorrentes referências às questões dos costumes. As fotografias de Teerão no tempo do Xá, que não era um regime democrático, eram de uma sociedade europeia, uma coisa absolutamente incrível. Fecho este parêntesis para dizer que se este ensaio for criticado, como muitas vezes tem sido, por ser um ensaio para velhos ingleses, não é totalmente falso que o seja, mas também não é totalmente verdadeiro.

O ponto seguinte que eu gostava de salientar é a ideia de, não só ter alguma coisa para conservar e para desfrutar, é também o que ele diz "a disposição conservadora manifesta-se quando há alguma coisa no presente que nós queremos continuar a desfrutar e também quando há um perigo de perda". Uma das ideias mais fascinantes do ensaio é que o conservadorismo é uma forma de melancolia face a uma das poucas coisas que nós, sejam quais forem as nossas convicções políticas, podemos ter a certeza absoluta que "o tempo passa e as coisas mudam", tirando a natureza humana, eu não vou entrar aí, mas imaginemos que a natureza humana tem de facto aspectos imutáveis mas as sociedades mudam, as instituições mudam e o Michael Oakeshott chama a atenção para uma coisa que toda a gente concorda excepto quando se fala de política, curiosamente, que é "perder uma coisa de que se gosta é mau". Isto dito assim de uma forma quase infantil, quase aula para uma criança. Qualquer pessoa concorda que perder uma coisa de que se gosta é mau, no entanto, poucas pessoas estão dispostas a dar o passo político ou tirar uma consequência política deste luto de perder as coisas que são boas, que nos dão prazer. Ele também fala de identidade e é já outro ponto que eu gosto muito no ensaio de que vou falar mais à frente. Ele não tem dúvidas nenhumas, e se há um livro de ficção que se pode ler juntamente com este ensaio é "O Leopardo" do Lampedusa, ele não teve dúvidas nenhumas que as coisas mudam, aliás, os conservadores estão convencidos de que as coisas não mudam e já tiveram surpresas desagradáveis. Ele, pelo contrário, diz que a disposição conservadora é um estratégia para lidar com o facto de as coisas mudarem, portanto, o conservador, longe de ser um imobilista ou um reaccionário é alguém que, sabendo que as coisas mudam de certeza, se vai posicionar estrategicamente perante isso. E ele diz, como é que se pode posicionar perante isso? De muitas maneiras, por exemplo: fazendo como que na discussão pública, o ónus da prova seja imputado a quem quer mudar alguma coisa (já é um pequeno avanço porque se se tiver que provar que a mudança tem alguma utilidade dá mais trabalho do que simplesmente dizer, muda-se porque sim); defender toda a estratégia gradualista, mudar pormenores e não the big picture; não mudar por voluntarismo o que vai à frente da sociedade, mas pelo contrário, de forma reactiva a coisas que já mudaram na sociedade. Isso é certamente muito relevante, embora ele não fale nas questões de costumes, é interessante e é uma das lacunas do texto, mas também seria difícil ele defender-se adequadamente se incluísse essa matéria. Nas questões de costumes há toda uma discussão à volta de, independentemente das nossas convicções, e para além do mais, as questões de costumes não são um bolo indivisível, há naturezas diferentes, mas há uma diferença entre responder legislativamente a uma mudança de mentalidades e provocá-las pela Lei, há toda uma diferença muito substancial, e quem diz legislativamente, diz judicialmente, nos Estados Unidos neste momento o Supremo Tribunal é um órgão activo dessa mudança mas aí é uma ordem diferente da ordem legislativa.

Ele diz mesmo que a disposição conservadora é uma forma de suportar a mudança, de aguentar a mudança, o que pressupõe que a mudança vai acontecer e isso é uma espécie de sinopse de "O Leopardo" do Lampedusa em que há claramente uma consequência de que a situação mudou, de que os valores são diferentes, de que os jovens pensam coisas diferentes dos velhos e, no caso de "O Leopardo", há aquela convicção, a famosa frase, que no fundo as coisas mudam todas para ficarem todas na mesma, porquê? Porque há uma convicção de que, e isso aparece muito nas personagens secundárias de "O Leopardo", porque se percebe que há ali constantes que são mais constantes do que as mudanças como, por exemplo, o oportunismo, o arrivismo e o príncipe apercebe-se de que isso, até numa revolução ou num momento de mudança política, acaba por ser mais determinante do que o idealismo das pessoas envolvidas, e mais as pessoas que querem de repente prestar serviço, servir novos mestres, tudo isso, portanto é uma visão muito cínica da mudança e, este ensaio vai um bocadinho nesse sentido.

Claro que o Oakeshott diz, e isto é muito importante porque circunscreve muito esta ideia da utilidade do conservadorismo, "por exemplo na mudança, nas nossas relações da vida do dia-a-dia há aspectos em que seria absurdo nós não mudarmos" por exemplo numa relação comercial, ele dá exemplo do homem do talho, se nós estamos descontentes com o serviço prestado, mudamos, porque há uma lógica utilitária e seria absurdo não mudar por uma espécie de fidelidade ao imobilismo ou coisas do género. Não, há qualquer coisa que nós queremos, há qualquer coisa que nós recebemos e a troca não é satisfatória, portanto muda-se. Ele diz, mudar de talhante é razoável, mudar de amigos não obedece à mesmo lógica, ele aliás tem uma boa definição de amizade em que ele define um amigo como alguém cujas ideias nós não queremos mudar. Nós não queremos mudar as ideias de um amigo e a lógica de conservar é francamente superior à lógica de mudar porque a mudança não traz nenhumas desvantagens. Até porque, no caso dos amigos, como ele diz, os amigos não são fungíveis, há amigos que vão e vêm e faz-se novos amigos, mas não se troca um amigo pelo outro como se troca o homem do talho pelo outro. O amigo é uma pessoa, de certa forma, insubstituível e numa relação comercial, num serviço, não é insubstituível, há outra pessoa que o faz da mesma maneira. Depois ele dá outro exemplo que é muito estranho, que ele diz  "há outra área da vida que não faz sentido mudar que são as coisas que fazemos simplesmente pelo seu ritual" e não é necessariamente uma relação humana, ele dá como exemplo pescar, "o objectivo de pescar não é apanhar os peixes, é ir à pesca". A não ser que esse fosse o objectivo de quem está nessa actividade e se sinta frustrado, mas uma pessoa que está um dia inteira no mesmo sítio e não pesca nada, não vai, necessariamente mudar de sítio no dia seguinte porque não é esse o objectivo, ela deriva prazer daquela actividade, daquele ritual. Nos rituais que não são necessariamente relações humanas como no caso da pesca, pode ser, pode haver um lado de companheirismo, mas se for um pescador solitário, aí é um acto ritual que não depende da utilidade e aí a mudança não tem interesse. Uma das partes interessantes deste ensaio é quando ele faz a diferença entre aquilo em que é útil mudar e que não é útil mudar e aquilo em que toda a gente está de acordo que não é bom mudar, o exemplo dos amigos, do qual ele depois vai tirar conclusões políticas, em princípio toda a gente concorda com este exemplo. Toda a gente concorda que é conservadora nalgumas coisas, eu tenho verificado, com algum agrado devo dizer, que algumas pessoas em Portugal têm dito "se há uma coisa em que eu sou conservador é na ortografia". Tenho verificado com alegria, algumas pessoas bastante à esquerda que dizem "bom, na ortografia devemos ser conservadores". Claro que na ortografia devemos ser conservadores, isso é evidente. Todas as pessoas concordam que há áreas da vida em que essa estabilidade e essa não mudança é positiva. Por outro lado, ele fala da identidade de uma forma muito curiosa, eu estava a ler um texto francês sobre o Oakeshott e eles salientavam particularmente esta dimensão, ainda por cima em França as políticas identitárias são muito fortes, quer étnicas, quer outras, e o Oakeshott que hiper-valoriza a identidade, no sentido de aquilo que nós somos, aquilo que nós fazemos, os nossos hábitos, aquilo que nos é familiar mas, ao mesmo tempo, diz isto, que é absolutamente inesperado, "claro que tudo isto é contingente". A ideia de uma identidade contingente, que é óbvio que a identidade é contingente, que se fossemos filhos de outra pessoa não éramos o que somos. O facto de a identidade ser contingente boicota de uma forma espectacular muitas das discussões políticas pós-modernas que atribuem uma espécie de essencialismo à identidade e isso é um contributo. Este ensaio foi escrito mas foi primeiro uma conferência, depois foi recolhido em livro em 62, portanto não diz respeito a esses debates modernos ou pós-modernos mas até nisso é útil.

A segunda parte do ensaio que é a parte onde mais previsivelmente os ataques ao Oakeshott surgiram e foram vários e imediatos, alguns foram simplesmente recusas, por exemplo, o Irving Kristol não quis publicar o ensaio do Oakeshott na revista Encounter, o Hayek que escreveu um texto chamado "porque não sou conservador". Evidentemente que várias pessoas, alguns liberais e outros neoconservadores, o Kristol vem dessa família, os neoconservadores são a definição típica de conservadorismo forte porque como eram quase todos Trotskistas no fundo mudaram de convicções fortes mas tinham o chip. Praticamente todos eles, o Messianismo democrático, todas essas coisas são tributários de uma concepção forte da política para quem todo este cepticismo e cautelas é um bocadinho anti-climático, por assim dizer. Mas nesta segunda parte do ensaio ele faz a seguinte pergunta: "Definimos aqui o que é que é uma disposição conservadora, mas em que é isso se relaciona com as ideias políticas conservadoras?" - e o Oakeshott não está muito convencido que se relacione directamente. Ele diz uma frase, embora a discussão seja prévia a esta frase, que é mais ou menos do género "pode-se ser perfeitamente conservador em política e em mais coisa nenhuma", o Flaubert dizia qualquer coisa parecida com isso em relação à literatura. Ele, sem entrar em polémica declarada, diz "aquilo que geralmente definem como balizas do que é um conservador não me parece interessante para a definição do que eu estou aqui a dar do que é uma personalidade conservadora". E ele praticamente faz uma lista, sem citar ninguém, e diz "se é para referência aos valores religiosos, à lei natural, ao providencialismo, ao organicismo, ou ao pecado original, não" e num parágrafo faz uma espécie de vários séculos de pensamentos políticos em que todos eles fazem a ligação entre as convicções políticas e alguns destes elementos, sendo que um deles não é menos importante que os outros, que é o pecado original. Há toda uma descendência ideológica do que é o pecado original e as suas consequências na política e uma das coisas que lhe foi sempre muito censurada como aos conservadores ingleses face ao conservadorismo americano, foi a não referência à religião. Embora hajam outros textos onde ele fala disso, neste texto diz que não fala disso.

Eu sinto-me francamente mais confortável com esta definição por duas razões: porque me parece que isso seria, por um lado, acrescentar uma contingência adicional a estas contingências bastantes que surgem, nomeadamente, a contingência da fé, ou seja, e se uma pessoa acreditar nisto tudo e não tiver fé? E depois há uma posição existente dentro dessa, que é para mim a pior de todas, que é a posição do género Maurrasiano que é "Deus não existe mas a religião é bestial". Conheço várias pessoas que a professam e enquanto crente prefiro um barrete frígio a este tipo de ideias. Não, é bom porque as pessoas ficam ordeiras, ficam calmas. E por outro lado, porque evidentemente que, não me levem a mal dizer esta frase no Instituto Amaro da Costa, no IDL, mas costumo dizer que não sou democrata cristão porque não invocar o nome de Deus em vão é um dos mandamentos. A proximidade explícita entre a ideologia política e a religião é nociva para ambas as partes sem prejuízo de uma pessoa que na actividade política ou na teoria política reconhecer o contributo nalgumas áreas, por exemplo na área social da Igreja, dizer o pensamento social da Igreja é um pensamento a ter em conta por um conservador, evidente que é. Há poucas teorizações sociais tão consistentes e tão elaboradas como a doutrina social da Igreja. A doutrina social da Igreja é um assunto que nós podemos discutir num debate académico, a ressurreição não é uma matéria para um debate académico e fazer depender convicções políticas de convicções metafísicas parece-me preocupante, além do mais muitos dos exemplos da chamada direita religiosa, começando nos Estados Unidos, são tudo menos recomendáveis, são uma espécie de caveat bastante significativo.

Eu vou terminar com mais dois pontos, já passei por alguns destes que tem a ver com esta ideia da mudança gradual. Ele diz "então mas no fim de contas o que é que se espera do Governo?" e aí o Oakeshott, que está bastante longe de ser um liberal, embora confesso que, nos últimos anos, já não sei o que é um liberal porque quando leio livros de teoria política é uma coisa, quando leio blogues é outra, portanto não sei bem o que é um liberal, seja o que for um liberal, há várias premissas que ele tem que não são partilhadas por um liberal, nomeadamente uma delas, talvez a principal razão pela qual eu não sou um liberal, é que para um liberal o cepticismo é disparate, um liberal é, de uma forma ou de outra, um optimista. É muito rara qualquer ideia liberal que não pressuponha que no fundo as coisas vão funcionar e sou um liberal no sentido normal das liberdades, nalgumas até sou quase libertário nomeadamente na liberdade de expressão. Mas noutras, de facto, uma certa crença que é quase gémea do anarquismo de que mesmo se o árbitro sair de campo os jogadores se entendem uns com os outros, não estou convencido disso, nunca estive, nem na economia nem em matéria nenhuma.

O ensaio do Oakeshott acaba com uma convicção que um liberal por razões diferentes partilharia que é a ideia de um governo limitado. Ele tem uma definição puramente descritiva, não toma partido nesta matéria. Ele descreve a sociedade como  uma espécie de caos de convicções, de objectivos de vida e nenhum dos quais pode ou deve ter um acesso privilegiado ao poder político ou à acção do Estado. O Estado deve ser servir como árbitro mas também deve evitar tornar-se porta-voz dos grupos de pessoas e de "determinados grupos de pessoas e das suas indignações favoritas". E nós podemos dizer que grande parte da política do século XXI tem sido canalizar as indignações favoritas de vários grupos sociais e essa visão limitada do Estado, por exemplo se pensarmos no que é o Partido Conservador inglês, sem confundir o conservadorismo dele com o conservadorismo e ideologia política e com o Partido Conservador, mas só para fazermos esse paralelo, o papel do Estado no conservadorismo inglês foi completamente revolucionado pela Thatcher, há um vídeo do Primeiro Ministro Harold Macmillan, já muito velhinho, a falar da Sra. Thatcher a falar de vender as pratas, ou seja, privatizar, em que se percebe que ele tem uma visão do Estado que não é minimalista e que toda aquela corrente que se costuma chamar One Nation dentro do Partido Conservador, não tem uma visão minimalista do Estado e há um dimensão assistencialista que, a certa altura, marcou mais ou menos o Estado Social, mas o Oakeshott, que não fala desses assuntos, simplesmente diz que no caos dos interesses diversos que as pessoas perseguem, o Estado não deve impedir nenhum nem favorecer nenhum, tentando entender que isto seja possível porque ele fala muito de ideia de crer, há uma expressão que ele diz qualquer coisa como "o sonho acompanhado do poder equivale à tirania" e por pouco entusiasmante que seja esta visão da política, não se mata pessoas com esta visão da política, isto é, a ideia do profeta armado, o título da famosa biografia do Trotsky, a ideia de que temos um sonho e há uma série de entraves aborrecidos ao nosso sonho que podem ser, por exemplo, as pessoas ou a natureza humana, deu resultados catastróficos.

Em Oakeshott temos um conservadorismo fraco, é um conservadorismo de uma extrema modéstia, é um conservadorismo de um extremo cepticismo, mas também com dois elementos que raramente são imediatamente identificados com o conservadorismo e que eu acho muito interessantes no texto dele: que é esse lado do presente e do enjoyment, da fruição, de gozarmos aquilo que temos que aparece mais ou menos no discurso conservador, geralmente ligado à ideia da propriedade privada, que eu acho importante mas não é só da questão da propriedade que se trata; e depois esta ideia de deixar que na sociedade se exprimam as peculiaridades de cada um, eu às vezes imagino que ele está a falar de uma espécie de residência de estudantes onde há pessoas com várias particularidades e deixar cada um ser maluco à sua maneira e há um lado muito live and let live nesta versão Oakeshottiana do conservadorismo que me agrada muito porque tanto a ideia do presente como a ideia do live and let live não são as tais ideias que nós associamos à palavra conservadorismo, são as tais ideias que nós precisamos de perder meia hora a explicar depois de dizermos a alguém que somos conservadores e, não sendo esta a última palavra sobre o que é o conservadorismo, até porque descreve melhor o conservador do que o conservadorismo, sendo uma palavra situada no tempo, situada no espaço, situada na idade, como ele próprio assume, e sendo um texto que tem uma espécie de parêntesis rectos onde está a religião que na verdade nós sabemos que não se pode pôr em parêntesis rectos, historicamente falando, e daí texto ter sido aplicado por vários lados e alguns com alguma razão. Este texto, ainda hoje, é a sintomatologia da doença de que eu sofro, nesse sentido foi-me muito mais útil no relacionar com a minha identidade política do que até os textos mais canónicos e mais sérios, o Burke, etc, que são evidentemente importantes e que reagem a situações históricas determinantes no caso da Revolução Francesa e que são textos também importantes noutro sentido mas gosto muito deste texto porque valida uma suposição que eu tenho que não é comprovável cientificamente é de que as nossas convicções políticas são pré-políticas, é de que as nossas convicções são, em grande parte, para além de serem situadas pela nossa experiência de vida, são temperamentais. Há uma ideia temperamental muito forte e como não são muitas vezes que alguém que é temperamentalmente melancólico, vê uma proposta política melancólica, apresentada de uma forma conseguida eu fiz, não direi, deste texto a minha Bíblia, mas um livro de bolso, só tem trinta páginas o ensaio, embora seja rendido aqui num livro muito extenso, que me ajuda um bocadinho a perceber o que é que quero dizer quando digo, se calhar para simplificar, que sou conservador. Obrigado.

Transcrição da palestra de Pedro Mexia. (*)