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POLÍTICA

" A Alemanha na actual crise europeia" (*)

2015-02-27 | Luís de Almeida Sampaio

Se olharmos para o panorama internacional e o virmos da perspectiva do debate europeu é inegável para todos que a Alemanha é um espelho de estabilidade e responsabilidade na condução de uma dinâmica internacional ancorada nos princípios fundamentais da União Europeia apoiada na NATO e na legitimidade internacional. Esta ideia de responsabilidade é absolutamente fundamental para compreender a Alemanha de hoje, é a palavra que mais significado tem no debate político alemão: a Responsabilidade. Ela é assumida pelos políticos alemães, mas também pelos principais actores económicos, culturais e académicos como algo que é absolutamente indispensável. Os interlocutores alemães são permanentemente perseguidos pelo síndrome do Homem Aranha, com mais poder vem mais responsabilidade, e é exactamente este discurso de responsabilidade que perpassa praticamente em todos os momentos do quotidiano político alemão. Isso é testemunhado por nós, nos debates do parlamente alemão e pelos alemães pela forma extremamente meticulosa e séria como foi possível alcançar um acordo que proporciona que a Alemanha tenha um governo de grande coligação que une os partidos que fazem parte das famílias políticas que na Europa compõem essencialmente o mainstream. Se pensarmos no parlamento e no governo federal alemão e projectarmos esta reflexão ao nível do parlamento europeu conclui-se que se o parlamento europeu tem condições para continuar a aprofundar o destino da União Europeia, no sentido de mais Europa, mais união económica e monetária, é fácil concluir que isso só é possível pelas coligações das famílias partidárias europeias.

Na Alemanha há o sentido de responsabilidade histórica e, principalmente no sentido em que vivemos numa época com muita turbulência, isto é assumido de uma forma desconfortável pela Alemanha e pelos alemães, isto é os alemães prefeririam não ter esta responsabilidade, falar-lhes nisto é fazer-lhes reconhecer que efectivamente têm todas as razões históricas, económicas, demográficas e políticas para uma enorme responsabilidade e com essa enorme responsabilidade vêm inevitavelmente mais críticas, mais exposição a criticas, mais eventuais antagonismos e dificuldades na acção de projecção política internacional na Alemanha.

É uma liderança tanto mais relutante que a Alemanha se habituou a pensar na Europa, na construção europeia, a par com a França. As comunidades europeias foram essencialmente uma criação franco-alemã e o facto de hoje a França não gozar objectivamente das mesmas condições de que goza a Alemanha para assumir as responsabilidades que a Alemanha se sente compelida a assumir no contexto europeu e internacional preocupa os alemãs, enfraquece os alemães e coloca-os numa posição mais inquieta em relação aos destinos da Europa.

Há uma grande preocupação na Alemanha, em todos os quadrantes da classe política, mas também do ponto de vista económico e financeiro, em relação à situação em França e há um suspiro de alivio sempre que boas notícias chegam de Paris. Por vezes temos a percepção de que há uma realidade latente, uma discrepância e uma dissintonia em relação a agendas políticas estratégicas entre Berlim e Paris e aquilo que posso testemunhar é que sempre que, independentemente da cor política do partido do governo, há sinais de fortalecimento económico, político e social estes são naturalmente assumidos como tal na Alemanha.

Outra característica fundamental da Alemanha de hoje é a procura incessante do consenso, há uma preocupação permanente em encontrar terreno comum, terreno de entendimento. Uma preocupação muito visível, muito permanente, de consensualizar soluções. Nada é feito na Alemanha sem que a preocupação fundamental, a coluna vertebral do diálogo, passe pela busca do consenso.

Quando falamos de sofrimento, de dificuldades económicas, sociais e outras, quando falamos de pobreza, devemos olhar para fotografias de Berlim em Maio/Junho de 1945. Essas imagens são de tal maneira reveladores que não é possível ninguém falar com os alemães fazendo valer que os alemães não sabem o que é o sofrimento, que não sabem o que é o sacrifício, que os alemães vivem numa situação que os torna incólumes à situação de sacrifício.

A responsabilidade, a procura do consenso e a preocupação para a Alemanha não estar sozinha num liderança europeia que é  assumida sempre de uma forma relutante: estes são os três principais pontos que queria frisar.

Para os alemães e para a Alemanha não temos muitas das virtudes dos mediterrânicos, somos atlânticos e temos uma atitude mental e social, uma psicologia colectiva, a ideia de que somos simultaneamente sóbrios, sérios e sobretudo que somos uma nação tão antiga que ultrapassou tantas dificuldades que evidentemente vai ultrapassar as dificuldades por que está a passar, isto é na Alemanha e para os alemães existe muito mais a percepção de que vamos vencer do que para os portugueses. É muito gratificante trazer esta mensagem dos alemães, de que não têm nenhum dúvida de que vamos vencer. Temos uma posição geoestratégica, que longe de ser vista como uma situação de diminuição ou periferia, é vista como um manancial de grande possibilidade, ou seja enquanto insistimos em considerar que o alargamento da Europa para o Leste e para o Norte nos tornou ainda mais periféricos e mais vulneráveis, sistematicamente na Alemanha temos a nossa posição valorizada como uma encruzilhada de culturas e de civilizações, como o país que partilha uma língua que é a única língua que tem a possibilidade de se afirmar como a próxima língua global. Depois do Inglês e do Espanhol não há mais nenhuma língua que possa vir a transformar-se numa língua da globalização, para além da nossa. Os alemães sabem muito bem que o alemão, apesar de ser uma língua magnífica, nunca poderá aspirar a ser uma língua da globalização. E por maioria de razão o mesmo se aplica a todas as outras línguas de raiz europeia. Não é o italiano, muito menos o sueco ou o holandês, o português vai ser a próxima língua da globalização. É falado por mais de duzentos milhões de pessoas no mundo, é a língua mais falada do hemisfério sul. Não é mérito nosso, não é certamente mérito da nossa demografia, é mais mérito de brasileiros, de angolanos, de moçambicanos e outros. O que é certo é que é uma arma estratégica que nós partilhamos, e que nós temos evidentemente a obrigação política, económica, diplomática de utilizar da melhor forma. Há consciência na Alemanha de que nós somos ponte, somos a porta, somos chave para mercados que as empresas alemãs não conhecem ou nos quais não se sentem confortáveis e que ninguém conhece melhor do que nós, do que as nossas empresas. E se por vezes ouvimos dizer que as grandes empresas alemãs também estão no Brasil, também estão em África, não precisam nem de estados nem dos governos, nem precisam do nosso nem do governo alemão. O que é certo é que a maioria das empresas alemãs, o tecido económico alemão, que é composto pelas empresas Mittelstand não estão presentes nem no Brasil, nem nos mercados africanos ou noutros mercados emergentes que ninguém conhece tão bem quanto nós. Portugal é visto como o único país da União Europeia onde se fala a mesma língua que é falada no Brasil, isto é muito significativo do ponto de vista estratégico, económico e cultural. Temos então uma posição privilegiada no quadro Europeu, os alemães sabem que há países na União Europeia que têm uma posição geográfica, demográfica e económica relativamente próxima da nossa, por exemplo a República Checa ou a Hungria, para dar apenas dois exemplos da Europa Central, cujos destinos só podem encontrar a sua realização plena exclusivamente no quadro europeu, não é o caso de Portugal. Portugal é evidentemente um país europeu, faz parte da família europeia, mas Portugal é também para além da Europa. E, em Berlim, na Alemanha, percebe-se isso muito bem e isso é uma mais valia fundamental que nós por vezes teimamos em não aproveitar como poderíamos.

Nós efectivamente, colectivamente e politicamente eu diria num espectro partidário mais alargado, temos um compromisso com o destino Europeu, nós fazemos parte da família Europeia, nós assumimo-nos como Europeus. E se a minha geração porventura ainda podia ter dúvidas em relação a isso, as gerações mais novas, que passaram pelo Erasmus, não têm sobre isto nenhuma dúvida. Os nossos filhos são Europeus, sentem-se em sua casa na Europa e nem lhes passa pela cabeça qualquer outro tipo de consideração. Essa partilha do destino Europeu, a certeza de que é a nossa casa comum e que, depois de anos de ditadura e de ostracismo no contexto internacional, voltámos a casa, reintegrámos a família. Isso é uma marca fundamental do nosso comportamento, quer do ponto de vista político como do ponto de vista económico e do ponto de vista filosófico. A Europa é o destino da Alemanha e é o destino colectivo, e daí ser tão importante perceber o que é que os nossos interlocutores alemães querem dizer quando falam de uma Alemanha europeia por contraposição com aquilo que, por vezes, com alguma maldade mas sobretudo com muita ignorância, se diz ser o caminho para uma Europa alemã.

Em todos os debates políticos, em todos os debates constitucionais e sobretudo os mais importantes debates que têm tido lugar no tribunal de Karlsruhe, é sempre o contexto europeu a referência. Não há nada que interesse e que se passe no debate alemão que não tenha essa contextualização europeia como principal referência. E o mesmo aplica-se hoje, a discussão desta manhã do Bundestag, que foi uma discussão interessantíssima precedida ontem por uma discussão dos diferentes grupos parlamentares, e que permitiu aprovar por uma maioria esmagadora aquilo que tinha sido acordado nas instâncias do Eurogrupo durante as últimas duas semanas, é mais uma vez, sobretudo no teor do debate, a revelação da preeminência do contexto europeu no mindset da política e dos políticos alemães. Nós partilhamos isto, nós queremos mais Europa, os portugueses querem mais Europa e sabem que a crise do Euro apanhou a Europa num momento de grande desequilíbrio entre o aprofundamento dos sistemas que têm a ver com a união monetária, de tal forma aprofundada que até temos pelo menos numa boa parte dos países da União Europeia uma moeda comum, é difícil imaginar uma união monetária mais profunda do que aquela que implica ter uma moeda comum, e por lado com uma ausência de aprofundamento dos mecanismos da coordenação macroeconómica. Primeiro porque não havia crise, e como não havia crise não havia incentivo para reformar, não havia incentivo para aprofundar a coordenação dos mecanismos macroeconómicos porque a crise é evidentemente um estímulo para a mudança. Por outro lado, porventura mais importante, é que o reforço da coordenação das políticas macroeconómicas mexe no âmago das soberanias dos estados nacionais, mexe nas prerrogativas dos governos e dos parlamentos nacionais e portanto é preciso ceder, porventura muito em termos de soberania nacional para permitir o aprofundamento da coordenação das politicas macroeconómicas. Perante este dilema, os chefes de estado e de governo da União Europeia, dos países membros do Euro, podiam optar por um de dois caminhos: ou diluir a união monetária, acabar com o Euro; ou, pelo contrário, seguir o caminho do aprofundamento da coordenação macroeconómica, e foi isto que foi decidido por unanimidade, não houve uma única voz dissonante, independentemente das filiações partidárias ou das famílias a que os governos que no momento foram chamados a discutir pertenciam, no sentido de que o caminho é o aprofundamento da união económica monetária e, com tudo o que isso implica, da união fiscal à união bancária, à genuína união económica e monetária que porventura implicará um progressivo aumento da união política. É esse certamente o caminho da Europa, pelo menos é esse certamente o caminho que a maioria dos políticos alemães e decisores escolheu. E eu estou convencido que é também esse o caminho que os decisores políticos portugueses escolheram, é certamente o caminho que eu procuro quotidianamente contribuir para que Portugal demonstre na Alemanha. Por isso mesmo, se calhar até há algumas razões para pensar que Portugal tem algumas parecenças com a Alemanha.

Transcrição da palestra de Luis de Almeida Sampaio (*).