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POLÍTICA

"A Direita, as direitas e o 25 de Abril (1974-2014)" (*)

2014-05-07 | Jaime Nogueira Pinto

O ponto de partida é a semântica e os conteúdos, uma coisa muito interessante das direitas e das esquerdas em Portugal é que, quer as direitas quer as esquerdas portuguesas, não sei quem é que começou com isso, mas as direitas teriam alguma coerência na sua formação, as esquerdas não teriam muita, foram sempre muito pouco liberais, no sentido em que respeitaram sempre muito pouco a liberdade do outro lado. A direita tinha uma certa lógica para isso, porque a direita, se filiarmos as coisas, no principio do séc. XIX que é quando começam a fazer sentido estas classificações, quando começa a haver uma certa opinião pública, começa a haver partidos. De facto a direita em Portugal é uma direita tradicionalista, legitimista, miguelista, essas coisas todas, mas tem uma certa lógica, baseada no sentido da monarquia de direito divino ou transcendental de cortar a liberdade que aliás tinha começado em França com a revolução 20 ou 30 anos antes e também tinha feito um grande massacre nos inimigos da liberdade; aliás é uma coisa bastante interessante, nas leis dos suspeitos da revolução francesa há uma coisa da Comuna de Paris que diz que os suspeitos não são só aqueles que fazem alguma coisa contra a liberdade, mas aqueles que não mostram entusiasmo e não participam, esses é que são os suspeitos.  Foi nessa base que a revolução estabeleceu as listas dos suspeitos, a França tinha na altura 28 milhões de habitantes e eram cerca de 500 mil suspeitos, era uma coisa familiar, os padres, os nobres, as respectivas famílias, etc. Desses matou à vontade 50 mil, portanto também isto não começou muito bem.

O primeiro grande genocídio da história moderna é o da Vendeia, praticado exactamente em nome da revolução e pela liberdade, pelos republicanos franceses. Entre nós, a seguir à Guerra Civil, onde os miguelistas tinham feito as suas repressões e as suas malfeitorias, mas a seguir, em 34 há de facto uma série de perseguições.

No continente, não só em Portugal, os defensores da liberdade acham-se no direito de, em defesa da liberdade, eliminar e neutralizar preventivamente; geralmente, aliás as leis dos suspeitos são uma invenção da revolução francesa, o princípio legitima essa prática. Em Portugal o regime da 1ª República, do Partido Republicano, tinha nos cadernos eleitorais 300 ou 400 mil pessoas numa população de 6 milhões, portanto não era propriamente muito representativo e com uma manipulação da lei eleitoral que privilegiava as cidades, sobretudo Lisboa e Porto, onde os republicanos tinham  a sua base de apoio. As pessoas de direita cometiam fraude eleitoral com muita tranquilidade, desde terem 10 ou 12 pessoas a votarem várias vezes, manipulações de cadernos eleitorais, mas faziam com tranquilidade porque achavam que os outros tinham feito exactamente a mesma coisa. E tinham. Foi isto que ficou na cabeça das pessoas, uma certa leviandade em relação ao processo eleitoral e que os democratas tinham feito batota durante a 1ª República e a segunda componente era o peso que o Partido Comunista tinha de facto na oposição e que era uma convicção, não era só uma manipulação do Estado Novo, Salazar e o Marcelo Caetano, era uma convicção que havia na direita de que se houvesse uma viragem das coisas era o Partido Comunista que lideraria as coisas. O terceiro ponto que fixou muito a direita nesse período era a questão de África, a questão do Ultramar que também vinha da esquerda republicana.

Estes são três pontos importantes, no tal código da direita portuguesa, primeiro a ideia de liberdade e democracia, o anticomunismo e a questão da nação, essas são as três coisas que identificam muito, historicamente, a direita até 74. Estes regimes, em Portugal, em Espanha e na Grécia, eram muito pessoais, muito personalizados, e de certo modo não tinham continuidade para além dos seus fundadores.

A grande definição da direita, o ponto de partida de todas as convicções de direita é partir de ideia de que a natureza é má, ou seja não é má nem é boa, mas inclina-se mais facilmente para o lado mau, a ideia de que se o Homem for deixado à sua vontade corre tudo muito mal e a Esquerda tem exactamente a ideia contrária, a ideia do homem bom.

Esta é a ideia que a Esquerda utópica assumiu, os tais princípios que chamamos de correcção política mas que no fundo são exactamente uma linha utópica e uma meta até nobre da humanidade, só que a natureza das coisas é capaz de não ser assim e isso é que por um lado divide realmente a base fundamental das concepções de esquerda políticas ou em termos de filosofia política; também traz, de facto, à Esquerda uma força grande sobretudo em épocas em que as pessoas reagem sobretudo emocionalmente e que reagem muita à superfície. Um país onde num inquérito público se considera o 25 de Abril o maior acontecimento da história de um país é uma coisa extraordinária. Isso demonstra de facto o profundo estado de ignorância a que as pessoas chegaram.

Historicamente as direitas portuguesas, melhor ou pior, têm o mesmo pensamento das direitas continentais, é a ideia da autoridade, a ideia da nação, do estado; a ideia de uma certa transcendência do poder político é uma desconfiança profunda do modelo igualitário e democrático, é a desconfiança em relação à ideia da máxima, é a tentação sempre para a organização cooperativa da sociedade, a ideia de que os homens têm  de estar enquadrados nos seus quadros sociais, nos trabalhos, na família. São muito melhores porque estão enquadrados, isso tudo no fundo nasce de uma desconfiança profunda da natureza humana  entregue a si própria. Esse ponto é a grande divisão.

A esquerda fez depois uma habilidade fantástica que foi a seguinte: quando chega ao poder usa exactamente os métodos repressivos que a direita historicamente é capaz de ter usado, portanto actua como se tivesse exactamente a mesma desconfiança, só que o aplica directamente àqueles que ela considera inimigos da revolução, da democracia ou do progresso, quer violentamente quando chega a ter o poder todo, quer intelectualmente e emocionalmente e em termos de opinião quando não tem esse poder, a ideia por exemplo do pensamento único, é muito difícil as pessoas falarem à vontade.

Quando chega o 25 de Abril, o que há de direita oficial está no governo e está numa organização que não tinha muita importância no anterior regime que era a Acção Nacional Popular e que tinha sido anteriormente a União Nacional. O Dr. Salazar utilizava a Associação Nacional para apresentar os candidatos do regime e tanto quanto se sabe ele limitava-se a, tendo a lista completa, com um lápis ver nome a nome se estava lá alguém que ele quisesse e se faltava lá alguém que ele não quisesse, e quando acabava desmobilizava a organização.

Portanto no dia 26 de Abril havia uma organização chamada Partido Comunista que era clandestina, mas que tinha alguma militância e alguma organização, havia uma força fundada em 1973 na Alemanha que era o Partido Socialista, que era muito pouco socialista, e as direitas tiveram um problema muito complicado. O regime, de certo modo, à partida, com o pacto MFA/partidos proibiu determinadas linhas, não foi tanto o privar os antigos responsáveis da acção política, porque eles não tinham grande acção política, aliás as pessoas que serviram no regime anterior geralmente eram pessoas bastante qualificadas do ponto de vista técnico, eram pessoas bastante idóneas. Isso passou-se nas pessoas da direita de uma direita de certo modo independente, que eram no fundo as pessoas que tinham feito os anos 60 nas universidades, os estudantes de direita estavam rodeados de pessoas de esquerda, as universidades, tirando a de Coimbra, eram dominadas por pessoas de esquerda. Mais ligados ao PC, mais ligados à extrema esquerda, eram uma espécie de santuários da esquerda e portanto esses estudantes estavam habituados a uma certa oposição, tinham de ter ideias, tinham de lutar por elas, tinham de sobreviver e esse núcleo que eu acho que é interessante seguir.

Não houve uma assembleia magna da direita, mas as 15 ou 20 pessoas que tiveram de certo modo algum protagonismo falaram em 77/78 e chegou-se à conclusão de que quem quisesse fazer política fazia. Era preferível que cada um fizesse o que gostava mais de fazer, quem gostava mais de escrever ou de ensinar fazia isso, quem entendeu fazer política havia partidos constituídos, talvez valesse mais ir para esses partidos e influenciar por essa via. Não devemos hostilizar as pessoas que vão para a política, porque se as pessoas boas não forem para a política então a política fica bastante pior do que já é. Não acho que seja inerente à política partidária ser uma espécie de reino do mal. "A política implica sempre a lama, mas uma coisa é a gente calcar com os sapatos outra é enterrar-se até aos joelhos nela".

É evidente que o regime foi fundado com uma determinada etiqueta, com uma determinada semântica e até com determinados conteúdos e depois as pessoas com menos formação histórica e ideológica são mais flexíveis em relação a isso, mas eu não acho que seja uma tragédia.

(*) Transcrição da palestra de Jaime Nogueira Pinto.