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POLÍTICA

"O Último Estalinista - Santiago Carrillo" de Paul Preston. (*)

2016-02-29 | Apresentado por Jose Manuel Fernandes

O Santiago Carrillo é uma pessoa que em Espanha é visto como uma espécie de Santo laico e quando morreu foi tratado como tal. É um antigo dirigente comunista, que no princípio dos anos oitenta foi expulso ou saiu do Partido Comunista espanhol, entretanto o próprio Partido Comunista espanhol foi, praticamente, desaparecendo; Carrillo teve sempre uma presença na vida pública e sobretudo foi sendo sempre apresentado como um comunista diferente dos outros, era um comunista moderado, era um euro-comunista, um comunista reformista não revolucionário, era alguém que contrastava com a figura, por exemplo do Álvaro Cunhal, aqui tínhamos alguém capaz de dialogar, de fazer pontes e, portanto, foi assim que de alguma forma ele foi visto durante as últimas décadas em Espanha. Houve razão para isso, isto aconteceu por causa da forma como ele geriu a transição. A Espanha é um país que viveu um processo de transição, que nós aqui tendemos a achar que foi mais simples que o nosso, dado que não tiveram uma revolução nem um PREC, mas foi um processo de transição extraordinariamente delicado porque tratava-se de fechar um período muito traumático que se tinha iniciado com uma guerra civil violentíssima 40 anos antes e cuja memória estava muitíssimo recente. Nós fizemos uma transição de uma ditadura branda para um regime democrático, a Espanha tinha e tem um conjunto de características que tornavam particularmente difícil a sua transição. Por um lado tensões nacionalistas, por outro a memória dessa guerra civil e também algo, que em Espanha é ainda mais acentuado que em Portugal, que é aquilo a que se chama as duas Espanhas, onde, desde o séc. XIX, se mantiveram e sempre existiram fragmentações muito profundas de divisão social.

A aura que de alguma forma Carrillo conseguiu construir foi o facto de ter conseguido nesse momento de transição tornar-se respeitável por uma Espanha e em particular pela parte da Espanha que ainda tinha vivos os problemas relacionados com a forma como os comunistas tinham travado a guerra civil, e ter tido a capacidade de negociar essa transição, a coragem de ter vivido um ano clandestino, disfarçado, em Espanha para pressionar essa negociação. Muitas vezes pensou-se que a Espanha passava para a democracia com o Partido Comunista ilegalizado e ele conseguiu que isso não acontecesse. A Integração do PCE no sistema que resultou da constituição de 78, a forma como moderou os sindicatos. Tudo isso deu-lhe essa aura. Depois um momento muito simbólico que é o 23 de Fevereiro, na tentativa de golpe dos militares e todos têm presente a imagem do comandante da Guarda Civil no parlamento de pistola na mão, subindo ao sítio onde falam os deputados. Nesse momento há dois deputados que não se escondem debaixo das cadeiras, o Primeiro Ministro Adolfo Suárez e Santiago Carrillo. Isso foi uma coisa que se notou muito em Espanha, depois é evidente que ele ao tornar o partido comunista num partido social democrata acabou por fazer com que o partido perdesse a sua natureza e hoje em dia, oscila entre momentos de maior ou menor radicalismo, mas nunca voltou a ter o peso que podia ter tido, nem ser nada semelhante ao Partido Comunista português. A forma de sobrevivência dos partidos comunistas é a ortodoxia, quando eles deixam de ser ortodoxos é difícil de manter isso.

Tudo isto fazia com que a imagem de Santiago Carrillo fosse uma imagem bastante adocicada, de homem moderado, que ajudou a construir a democracia, corajoso, que ajudou a enterrar o passado. O Rei a tratá-lo bem, toda a gente presente no funeral, como uma espécie de herói nacional.

O que este livro nos trás é o retrato completo do Santiago Carrillo e que mais do que isso mostra-nos alguém que, independentemente de no final ter defendido políticas euro-comunistas e moderadas, nunca deixou de se comportar dentro do PCE, depois dirigiu o PCE utilizando os métodos típicos e clássicos do Estalinismo, ele tem uma história muito interessante. Primeiro pelas suas origens familiares, Santiago Carrillo, ao contrário do nosso Álvaro Cunhal que era filho de um advogado e da classe média, Santiago Carrillo era filho de um mineiro das Astúrias, dirigente sindical e líder da UGT, que tinha inclusivamente deixado as Astúrias e ido para Madrid porque era um autodidacta, alguém que cresceu e que se tornou uma figura importante e ele próprio começou a sua carreira política a militar nas juventudes do Partido Socialista Operário Espanhol, que ao contrário do nosso, que é um fenómeno recente, o PSOE tem as suas raízes até ao séc. XIX sem nenhuma interrupção. Nessa época, o PSOE era um partido que tinha pouco do social democrata que lhe damos hoje, era um partido que sendo socialista tinha largos sectores que se reviam na revolução bolchevique, apesar de existir em Espanha um Partido Comunista. Havia linhas no interior do partido em que se debatia a via reformista ou a via revolucionária, digamos que até a própria herança de Bernstein não estaria completamente assumida nessa fase. Neste período em que as coisas se começam a encaminhar em direcção à frente popular, que depois daria a vitória das esquerdas unidas em 1986, há um movimento de aproximação entre as juventudes do PSOE e a juventude comunista, na prática o que isto significa para Santiago Carrillo é levar a juventude do PSOE para dentro do Partido Comunista, rompendo nessa altura com o pai. Há momentos extraordinariamente duros na relação dele com o pai, de uma grande crueldade na forma como ele rompe com o pai e depois se vai relacionar com ele.

Ele tinha 23 ou 24 anos, ocorre logo nos primeiros meses da guerra civil um dos episódios que há de marcar a história de Santiago Carrillo e vai ser uma questão crítica até ao momento em que ele negoceia a transição. A guerra civil espanhola foi uma guerra marcada por barbaridades imensas, dos dois lados, dentro das barbaridades cometidas pelo lado republicano, foi em Madrid quando se começou a prender as pessoas suspeitas de serem simpatizantes dos nacionalistas e neste processo vão ocorrer prisões e depois execuções em massa, sem julgamento, as pessoas são levadas, fuziladas e enterradas. Tem um nome, que não me lembro, na altura em que isto ocorre Santiago Carrillo tem já responsabilidades, não é o chefe, mas tem responsabilidades operacionais e não restam muitas dúvidas que ele participou nesta operação. Ele fica ligado a isto, na altura ele era ainda muito novo, tinha os seus vinte e poucos anos.

Durante a guerra civil o que se vai passar é que gradualmente, em boa parte, pelo facto de o único apoio ao lado republicano ser a União Soviética, por outro lado pelo papel que desempenharam as brigadas internacionais organizadas, o Partido Comunista Espanhol, que era um pequeníssimo partido acaba por, sem nunca ter tido o Primeiro Ministro nem o Presidente, acaba por na prática dominar o governo e sobretudo, que é o mais importante, o exército. Para conseguir esse controlo há momentos de enorme brutalidade, o mais conhecido de todos é o que se passa na Catalunha, em Barcelona em particular, e que está extraordinariamente descrito por Orwell na Homenagem à Catalunha, em que se mostra como é que na retaguarda os anarquistas tinham muita força em Espanha e por outro lado os trotskistas do POLM foram dizimados pelos estalinistas, porque na altura já havia comando directo de agentes do KGB, operacionais russos no terreno. É esse o barco em que vai Santiago Carrillo.

O que se passa a seguir, ele ainda era demasiado novo para ser líder, as figuras que saem no fim da guerra e são exilados, são outros. O partido vai dividir-se, uma parte vai para os países de Leste, uma parte fica em Paris a controlar o centro e outra parte vai para a América Latina, fica um pouco longe do controlo da operação no interior. Santiago Carrillo vai ter bastante importância na ligação com os agentes do interior, aqui é uma das partes que está mais explorada neste livro, que é a forma como ele por um lado falha quase todas as suas apostas, os seus relatórios são delirantes. Em Espanha manteve-se uma guerrilha durante muitos anos e ele sistematicamente vai culpando outros pelos falhanços e ao mesmo tempo quando aparecem pessoas que contestam a sua linha ele chega ao ponto de os mandar matar, noutros de os entregar à polícia do Franco, que era a mesma coisa que os mandar matar, porque a seguir eram mortos. Isto que nós sabemos que acontecia, era corriqueiro nos países do bloco soviético não é assim tão comum em países que, para todos os efeitos, estão ocupados pelo inimigo e em que mandar matar adversários políticos não era assim tão normal. Felizmente que tudo isto ficou relativamente mais documentado do que na história de outros Partidos Comunistas, na história do PCP isto está muito menos documentado, até porque algumas das figuras que ao longo da história se opuseram às lideranças quase nunca quiseram assumi-lo, nunca tiveram reais roturas no sentido de se afastarem ideologicamente, em vários momentos de reestruturação e saneamento do nosso PCP em que também há suspeitas mais do que fundamentadas de que há dirigentes que são entregues à polícia, o caso mais conhecido é o de Júlio Fogaça, que era o principal dirigente no período em que o Cunhal está preso e que depois deste sair da prisão é derrotado num verdadeiro golpe anti-estatuário dirigido pelo Cunhal e, passados uns tempos, é preso em condições extraordinariamente estranhas na Nazaré, num encontro homossexual, no entanto nunca o assume, acaba sempre por emocionalmente estar ligado ao PCP. Neste caso há algumas figuras, o mais conhecido é o Jorge Semprun, um dos principais dos dirigentes do interior no princípio e no fim dos anos 50, princípio dos anos 60 e que tinha facilidade em entrar e sair de Espanha, que era uma das pessoas que assegurava a ligação directa com Santiago Carrillo. Quando escreve as suas memorias ele conta o que se passou e como é que estas coisas se passaram, o Santiago Carrillo tinha sob muitos dos seus rivais uma vantagem é que ele era muitíssimo mais trabalhador, uma capacidade de trabalho brutal, sacrifica várias famílias e várias mulheres a essa capacidade de trabalho e não só, mas essas coisas nestes meios não são grandes novidades. Há aqui novamente momentos de grande frieza e de grande crueldade e sempre que há rotura há sempre um péssimo tratamento aos opositores.

Isto já se passa nos anos 60, numa altura em que Santiago Carrillo já tinha embarcado no anti-estalinismo e do ponto de vista da táctica política tinha evoluído para uma táctica política mais próxima do que o levaria ao euro-comunismo. Uma das guerras do Cunhal quando sai da prisão em 1960 é separar o PCP do PCE, que tinha muito mais influência e muito mais peso em Moscovo, que ele achava pacifista e reformista. Durante uns tempos tem alguma dificuldade em equilibrar isto, porque verdadeiramente não há um golpe e a linha dominante em Moscovo e no sentido da evolução do partido de Carrillo.

Aquilo que é interessante neste livro, mais do que perceber a evolução das posições políticas, porque essas são relativamente conhecidas, é perceber como é que estes partidos funcionam por dentro, quais são os métodos que utilizam, como é que isto se passava de uma forma em que não é apenas deixar de falar a alguém, é muitíssimo mais dura e radical. Ao mesmo tempo verificar que apesar disso tudo é possível ser um herói nacional, como Santiago Carrillo acabou por ser por causa do que ele fez no final da sua vida. Sendo que já depois de fazer isto ele dentro do PCE (e acaba por ser assim que ele morre), porque ele próprio acaba por ser vítima de um saneamento e de ficar sem partido. Os últimos 20 anos da sua vida ele passa a escrever autobiografias e a dar entrevistas, procurando reescrever a sua história, contrariando aquilo que eram as memórias e os testemunhos daqueles que foram passando por ele e em particular procurando distanciar-se, dizendo que não tinha nada a ver com o famoso massacre, cujo nome não me consigo lembrar.

Transcrição da palestra de José Manuel Fernandes. (*)