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POLÍTICA

O populismo na extrema-direita e extrema-esquerda europeias (*)

2013-07-03 | Florian Hartleb
O populismo na extrema-direita e extrema-esquerda europeias (*)

Agradeço o vosso amável convite, esta é a minha terceira deslocação a Portugal e estou muito satisfeito por esse facto. Agradeço ao Luís Gouveia Fernandes, com quem já estive em contacto diversas vezes, a última das quais há umas semanas em Chipre a participar num Seminário acerca dos problemas Europeus. Estamos também a falar sobre os novos receios ou desafios sobre populismo e extremismos na Europa. E não será necessário realçar ou tornar mais visíveis as novidades deste fenómeno. Em cada conferência que faço, começo por este ponto: Porque me darão a vossa atenção? Neste momento de profunda crise europeia, alguns políticos dizem que esta é a pior crise da história da integração europeia. Também a líder alemã, Angela Merkel, diz que esta é a maior crise de sempre. Não é uma grande surpresa que em tempo de crise haja sempre espaço, pelo menos em teoria, para novos empreendedores em geral, assim como para o populismo e extremismo.

Por toda a Europa isto era o que eu gostaria de descrever. Tal como eu vejo, temos tido na Europa alguma falta de desenvolvimentos, temos tido uma espécie de politização das velhas ideologias. Há uma espécie de novo fascismo na Grécia e na Hungria, para aceitarem partidos fascistas no Parlamento. Estes partidos políticos são claramente o ressurgir de um extremismo sub-cultural. Em segundo lugar, temos tido o sucesso dos chamados partidos populistas. Nas últimas eleições na Finlândia, o partido "True Finns" tinha um slogan: "Porque têm os Finlandeses de pagar para Portugal"? Foi por esta razão que eu mencionei, isto é muito desagradável para um Portugal europeu, mas é também uma questão que diz respeito à estabilidade europeia e ao princípio da solidariedade. Para este partido, cada vez que a Europa se envolve, há problemas. Com este slogan, nas últimas eleições, o partido conseguiu nada mais, nada menos, que 20% dos votos. Foi até considerada a possibilidade de este partido vir a fazer parte do governo finlandês. Na Europa temos agora muitos partidos populistas e extremistas com muito sucesso, não apenas na Escandinávia, mas também em França, por exemplo. Em Portugal não existe este tipo de partidos, mas em Espanha e na Alemanha existem, talvez por razões históricas. Nestes países existe uma sensibilidade contra o fascismo e também têm as consequências, tal como nós temos na Alemanha, contra os partidos extremistas. Há mais de 10 anos que vimos considerando a possibilidade de eliminar o nosso partido da extrema-direita. Nós, países com um passado fascista, temos uma sensibilidade contra estes movimentos. Infelizmente, isso não acontece na Europa Central e Ocidental, assim como na Grécia e na Hungria, tal como atrás vos disse. Eles mostraram símbolos fascistas, tentando mobilizar uma forma de nostalgia do passado.

O terceiro ponto que eu gostaria também aqui de discutir é o aparecimento de uma certa forma de ideias radicais de esquerda. Não nos podemos esquecer de olhar apenas para os avanços da direita, mas também para as ideias da esquerda. Por exemplo, nos Estados Unidos, temos o "Occupy Movement", que dizem que representam 99% das pessoas, contra 1% que pertencem aos Bancos e capitalistas. Eles querem ocupar - olhem para o nome - os lugares públicos e têm muitos problemas com a polícia. Têm também com eles alguns intelectuais, como David Graeber, que quer levar por diante a ideia de construir uma espécie de nova narrativa para o Comunismo e Socialismo. Tentaram inventar um "Manifesto Comunista para o século XXI", porque eles sabem que o Socialismo e o Comunismo perderam toda a credibilidade depois da queda do muro de Berlim, e esta esquerda radical tenta encontrar esta narrativa para o século XXI.

Estes três pontos, em geral, indicam-nos o tema escolhido para hoje. Indo um pouco mais além deste tópico, por toda a Europa nós temos hoje um chamado novo "anti-elitismo". Encontramos mudanças nas elites políticas nacionais. Como muito bem sabem, em Portugal existe a mesma situação, temos muitas demissões de ministros em mais de metade dos governos na zona Euro, portanto, temos várias eleições "irregulares" para além do que se poderia esperar, que deveriam aguardar pelo próximo período normal de eleições, para se poder fazer a avaliação competente do seu trabalho e poderem ser eleitos de novo. Mas agora vamos ter, em metade dos países da zona Euro, novas eleições, eleições imprevisíveis e vimos que tínhamos novos desafios, como o movimento Grillo em Itália, um comediante esquerdista que iniciou um blog e um movimento político afirmando que todos os políticos são corruptos e que ele desejaria "correr" com todos os políticos do Parlamento. Com este movimento ele obteve quase 20% dos votos e é muito influente junto dos políticos Italianos. Na Alemanha temos um Partido, iniciado na Suécia, que se denomina Partido Pirata. Dizem pretender abrir a política, ser tudo aberto e transparente, dizem não necessitar de um líder, querem uma espécie de participação permanente através da Internet. Este partido entrou de alguma forma na Alemanha, mas não teve grande sucesso porque subestimaram o poder das novas tecnologias e começaram a acusar-se mutuamente.

Os novos políticos, mulheres com 24 e 25 anos, explodiram, estão desanimadas com os políticos. Alguns dos bem conhecidos políticos do "Partido Pirata" dizem que não querem utilizar o Twitter ou o Facebook, porque têm muitas queixas e isso funciona contra a personalidade. Este movimento acabou, mas demonstrou que esta nova espécie de anti-elitismo é capaz de concorrer connosco.

Por outro lado, no contexto da crise europeia, as últimas eleições na Europa, em França, Holanda e Finlândia, demonstraram que podemos ganhar eleições não com a Europa, mas contra a Europa. Portanto, os partidos políticos fizeram campanha contra a Europa e contra a ideia da Europa. A outra forma de vencer dos partidos populistas, e também das forças extremistas, pelo menos na Europa Ocidental, era usar o tópico do Islão e da Imigração, especialmente na Holanda, com Geert Wilders, um político que criou um partido com um só membro, muito invulgar no contexto europeu e que diz que o Islão é tão perigoso como o Nacional Socialismo de Hitler. Ele é muito radical, mas teve grande influência nos políticos holandeses e, em geral, o medo do Islão é uma espécie de fórmula vencedora para as chamadas forças populistas e extremistas na Europa.

Antes de prosseguir com outro tema, deixem-me explicar-vos o que quero dizer com o termo extremista. Porque quando estamos falando em debates académicos, muitas vezes ficamos confusos sobre o que é que eles estão a falar. O que eu quero dizer é que o extremismo é contra os valores da democracia, quero dizer que o uso de alguns dogmatismos e teorias da conspiração é uma clara distinção entre amigos, que estão de um lado e inimigos que estão noutro lado. Em geral, temos três espécies de extremismos. Temos o extremismo de extrema direita, muitas vezes conotado como racismo. Temos o extremismo de extrema esquerda, em que se encontram os políticos que são contra o capitalismo. E temos também os chamados fundamentalistas islâmicos, que começaram com a revolução do Irão de 1979, com uma espécie de teocracia moral, que ainda existe, e que recordamos dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001.

O terrorismo é uma forma de extremismo com o propósito, de algumas pessoas, conseguirem captar a atenção dos media. Têm também ideias muito radicais. Este terrorismo é um novo desafio para todas as democracias liberais, devido ao facto de que temos uma pessoa muito singular, na Noruega, com Anders Breivik, que foi responsável pela morte de mais de 70 pessoas. Ele também escreveu um manifesto de mais de 1.500 páginas. Estava sozinho, não tinha qualquer organização por trás, embora fosse membro de um partido populista há muitos anos. Radicalizou-se na internet e encontrou as ferramentas necessárias para levar a cabo este massacre. Portanto, Breivik foi um caso novo. Presentemente, na Alemanha, estamos muito preocupados porque três pessoas assassinaram, ao longo de vários anos, 12 imigrantes turcos, eles são os chamados nacionalistas subterrâneos. Isto significou um grande choque na Alemanha, paralelamente a toda a sensibilidade do passado da ala direita do partido socialista, no sentido de que este tipo de terrorismo pode acontecer no nosso país. Para além de tudo, o facto de nós termos, devido à nossa Constituição, uma espécie de observação sobre essas tendências extremistas, que, contudo não se apercebeu desta iniciativa terrorista. Portanto, esta é hoje uma grande preocupação para a Alemanha.

Necessitamos de distinguir o extremismo, saber se têm uma forte ideologia, algum dogmatismo e se estão contra a Constituição e o novo populismo. O novo populismo, como o dos Finlandeses, que fizeram campanha contra Portugal, é mais flexível e pragmático. Eles têm um líder carismático, andam a dizer que as elites políticas são corruptas e dizem também que querem "os políticos junto do povo", "vamos encontrar um novo caminho". Eles não são totalmente contra a Europa, eles são eurocépticos moderados, não querem sair da União Europeia. Por exemplo, eles dizem que a União Europeia não é democrática e burocrática, dizem "vamos encontrar um novo caminho para a Europa". Estes populistas são muito bem sucedidos na maior parte dos países europeus. Como eu disse, eles são flexíveis e ouvem a população. Eles acabam de lançar slogans que lhes podem trazer alguns votos e estão a utilizar uma forma de política, estereotipada, queixando-se contra os imigrantes, contra o Islão, contra a União Europeia e contra as elites políticas europeias.

Pelo que acabei de descrever, será isto um fenómeno da crise? Como é que se faz a avaliação deste desenvolvimento dinâmico? O problema é que, por trás, não é apenas um fenómeno da crise, no sentido em que perderam a moralização. Estão a votar por estas causas. O que podemos observar, especialmente na Escandinávia, mas também noutras regiões da Europa, a população da classe média está receosa de perder este estatuto, por isso estão a tentar encontrar uma saída, especialmente os imigrantes da União Europeia ou os do Islão e, portanto, estão a votar nestes partidos. O que eu quero dizer é que seria muito simples dizer apenas que os que perderam a moralização não são apenas, de todo, imigrantes e desempregados que estão a votar nestes partidos. Não, isto é um fenómeno muito mais alargado.

Como prevenir estes avanços? O vosso caso em Portugal demonstra que podem escrever na Constituição que não são permitidos partidos políticos com elementos racistas ou fascistas. Isto é o que está escrito na vossa Constituição de 1976. Outras estratégias estão também a ser seguidas em França e na Bélgica, para terem força e dizer que não haverá colaboração com estes partidos. A outra estratégia é o que alguns partidos políticos ou governos fizeram na Europa, certas adaptações. Portanto, temos tido regras muito mais rigorosas para a imigração, que começaram por proibir as "burkas", as roupas tradicionais das mulheres islâmicas. Na Dinamarca introduziram o controlo nas fronteiras, pelo que são estas as formas utilizadas nesta situação.

Nalguns países, os principais partidos políticos colaboram com os populistas radicais. Foi um grande escândalo em 2000, provavelmente ainda se recordarão, com a Al-Qaeda, que foi muito bem sucedida, com o Partido da Liberdade na Áustria, e, então, o partido do centro-direita informou-os que podiam juntar-se a eles. Eles domesticaram este partido populista da direita, porque um partido radical populista rival era um parceiro e estavam na preocupação da Europa e teriam que fazer muitos acordos. É também uma possível estratégia, não apenas para dizer não, mas para dizer "ok", vamos tentar trazê-los a uma cooperação. Temos várias estratégias de acordo com estes desenvolvimentos.

Olhando através da Europa, porque foi dito que cerca de 80% dos europeus são a favor desta democracia, nós podemos dizer que a nossa democracia liberal não está em perigo. Mas agora estamos a procurar novas vias para a democracia, há uma nova necessidade de participação, existe um descrédito nas nossas elites nacionais, assim como nas europeias. Há alguma simpatia por uma democracia de modelo mais autoritário. Não é voltarmos a um modelo ditatorial. A população europeia quer ter a liberdade que ganhou para fazer o que quer. Mas a democracia, ou este modelo de democracia, não é muito popular, neste momento, especialmente no sistema político da União Europeia. O povo diz que este sistema político da União Europeia não é muito democrático. Nós vemos, e isto será muito interessante nas próximas eleições europeias de Maio de 2014, um declínio da afluência às urnas. Em cada eleição a afluência às urnas é menor. Começamos agora a falar de uma forma mais europeia, por exemplo, ontem, quando eu vinha de Munique para Portugal, li numa das páginas do jornal que o vosso Ministro das Finanças se demitiu. Portanto, nós observamos agora que, cada vez temos mais um público europeu e enfrentamos e lidamos com problemas noutros países europeus. Qual será o resultado disto? Eu não sei, mas estamos a enfrentar este desenvolvimento.

No que se refere ao extremismo, direi que não há ligações entre a violência e o sucesso destes movimentos extremistas. Por exemplo, na Alemanha temos um grande número de violência extremista, mas não temos partidos extremistas com sucesso. Os militantes de forças extremistas estão a tornar-se fortes, mesmo como disse no início, vemos o surgimento de extremismos em países como a Hungria, especialmente nos países em crise e não sabemos o que vai acontecer daqui para a frente.

Em geral, temos dois grandes problemas na Europa. O primeiro é a migração, o facto de, por exemplo, em Portugal, haver muito desemprego jovem. Eles pretendem ir para outros países, como por exemplo, para os países Escandinavos, Alemanha, etc. Esta é a grande chance para os partidos populistas dizerem: "porque é que vocês querem sair, ou porque é que querem vir para cá? O assunto das migrações está cada vez a ganhar maior importância.

O segundo caso, em geral, consiste em encontrar o equilíbrio entre a tensão da liberdade, por um lado, e a segurança, por outro. Nós podemos ver agora, em casos como o que diz respeito aos Estados Unidos, que estamos em grandes dificuldades para encontrar o caminho certo entre a privacidade e a segurança. Este é um dos assuntos importantes que temos que enfrentar presentemente.

(*) Transcrição da palestra de Florian Hartleb.