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POLÍTICA

"Recuperação económica: onde estamos, para onde vamos" (*)

2015-09-25 | António Pires de Lima

A minha intenção era falar de economia e depois de ter visto o candidato a ministro, não sei se da Economia se das Finanças, do Dr. António Costa num programa humorístico esta semana, fiquei devastado, senti-me até desvalorizado, não tendo eu nos últimos dois anos e meio produzido modelos económicos e dedicado a fazer folhas de cálculo do Excel extensivas, para de alguma forma animar os empresários e justificar aquilo que vai ser a evolução da economia, fiquei verdadeiramente siderado, para não dizer deslumbrado com a forma técnica, tecnológica até, de vendedor de uma ciência oculta e com uma absoluta  falta de sentido de humor, que foi revelado por aquele que é o grande mastermind da economia do partido socialista para estas eleições.

Eu, apesar de ter frequentado os cursos de Economia, de ter feito todo o caminho de leitura necessário, dos grandes clássicos de todos aqueles homens que se dedicam a estudar o fenómeno da economia, continuo a olhar para a Economia com uma ciência muito simples. Não esperem que venha falar da recuperação económica e daquilo que está para vir nos próximos quatro anos baseado em horas e horas de estudo que tenha passado com a equipa e mais não sei quantos assessores especializados em modelos econométricos para vos anunciar um amanhã que canta. A Economia é a ciência da vida e a vida é por definição imprevisível, incerta, a Economia funciona em função dos comportamentos das pessoas, da psicologia das pessoas, e por isso todos os modelos que procuram prever aquilo que é o funcionamento da Economia falham, porque felizmente o comportamento das pessoas não cabe numa folha de Excel, não cabe num modelo econométrico e é muito mais rico do que aquilo que procuram fazer os economistas que tentam ser uma espécie de "mandões" daquilo que é esta ciência.

Eu gostava de explicar a recuperação económica que estamos a viver com base em quatro ideias muito simples, que são uma história para toda a gente que é facilmente entendível e compreensível. A primeira condição desta recuperação económica que estamos a viver tem a ver com a estabilidade política, sem estabilidade política ao longo dos últimos quatro anos e meio, Portugal não teria feito o ajustamento financeiro não teria "reganhado" a sua credibilidade e reputação, não teria iniciado um processo de recuperação económica, por isso é que as pessoas ligadas às empresas, entre as quais eu me incluo, ficaram tão inquietas com um possível debacle deste governo em Julho de 2013, aquele momento foi um momento planeado e só planeia estes momentos quem tem um raríssimo talento e ambição política, mas foi também em certa medida um momento de clarificação, não só se arrumou o governo para fazer face aos desafios desta licenciatura, nunca mais se falaram de problemas de estabilidade dentro da coligação, a partir do momento em que cada um ficou a fazer aquilo que estava destinado e vocacionado para fazer e a partir do momento em que se deu o peso ao segundo partido que merecia. Se o segundo partido da coligação é essencial para assegurar a estabilidade da coligação e se a estabilidade é um valor fundamental, o melhor é pôr o segundo partido da coligação, não no banco de trás do automóvel, mas pelo menos no lugar do navegador. Foi muito importante que o PSD e o CDS, e esta é uma homenagem que faço aos dois partidos, sei que é difícil aguentar a tensão própria da vida dos partidos, e foi muito importante que na fase mais difícil da nossa vida em democracia, onde podíamos ter derrapado e estar hoje na condição da Grécia, podia ter sido essa a consequência se este governo não tivesse cumprido a sua função até ao fim, o PSD e o CDS tenham feito das fraquezas forças e tenham posto o interesse nacional à frente do interesse partidário e do interesse pessoal para levar a legislatura até ao fim. Não estaríamos a viver um período de recuperação económica se esta coligação não tivesse governado durante quatro anos e meio e isso deve-se ao trabalho e à convicção do PSD, do Dr. Passos Coelho, ao trabalho e à convicção do CDS e do Dr. Paulo Portas, deve-se também e é justo reconhecer, ao papel hoje pouco valorizado, mas muito importante, do Sr. Presidente da República, e deve-se fundamentalmente, porque os partidos comportam-se em função dos estímulos que recebem das pessoas comuns, à onda que ao longo dos últimos dois ou três anos, muitas vezes magoada por via das  decisões que iam sendo tomadas, ninguém gosta de perder rendimentos, ninguém gosta de ver afectadas as suas pensões e ninguém gosta de pagar mais impostos, mas foi acreditando que aquilo que estava a ser feito era, apesar de nem sempre justo, necessário e foi reclamando do PSD e do CDS uma legislatura que fosse até ao fim. Isto não vem nas folhas de cálculo, não vem nos modelos macroeconómicos, não vem em nenhum documento apresentado para visionar a próxima década, mas foi uma condição fundamental, de bom senso, que todas as pessoas comuns entendem, é que sem estabilidade não se consegue construir nada e a estabilidade política ao longo dos últimos quatro anos e meio foi um valor determinante para mudar a percepção externa de Portugal, que era visto como um país irrequieto, irresponsável e inconstante e para que, acreditando mais em Portugal, pudéssemos iniciar um trajecto de recuperação económica.

A segunda ideia que acho que foi muito importante para esta recuperação económica tem a ver com a coesão social. Quem passa pelas empresas e tem como missão gerir, estimular os colaboradores, nomeadamente em momentos difíceis, sabe quão importante é para o sucesso de uma instituição a coesão e o alinhamento entre todos aqueles que trabalham nessa instituição e nessa empresa. Em bom rigor este governo só por uma vez, em 16 de Setembro de 2012, esteve em riscos de perder esse elemento, numa medida que terá sido mais pensada em gabinetes do que propriamente sentida em termos de efeitos práticos, qualquer pessoa que trabalhe numa empresa sabe que se eliminarmos 6% da taxa social única aos patrões fazendo-a pagar com mais 6% de taxa pelos colaboradores estamos a cometer um acto que é sentido por todos os trabalhadores da empresa como gritantemente injusto; com excepção desse momento, onde no final o governo acabou por ouvir a voz do bom senso, acho que ao longo destes quatro anos e meio, apesar das dificuldades do tempo em que vivemos nunca chegámos a um ponto onde as relações sociais se deslaçassem, minando aquilo que era a coesão social. Nesse sentido é uma vantagem que a revolta social se canalize para forças sindicais ou políticas que de alguma forma estão institucionalizadas na nossa democracia. Foi muito importante e deve ser sempre agradecido o facto de em termos de contestação social, não só termos conseguido chamar à colaboração com o governo em muitas reformas e muitos momentos capitais as associações patronais, que fazem aquele ar de quem está ali a fazer um frete, que o governo nunca é bom, que o ministro da economia não é exactamente aquilo que queriam, embora comigo tenham sido sempre muito simpáticos, mas que no final estiveram colaborativas com o governo, mesmo quando o maior partido da oposição iniciou um caminho de irresponsabilização, irresponsabilidade e radicalização do discurso e o papel principal nessa coesão social tem de ser atribuído à UGT, é muito importante termos os trabalhadores connosco em qualquer organização. Nas empresas onde que trabalhei sempre foi o principal aliado, para além dos accionistas. O facto de ter sido possível, primeiro com o João Proença e depois com o Carlos Silva, certamente por muita influência que têm na UGT, os TSD e o FTDC, muito por influência da força que os sindicatos mais ligados a partidos não socialistas têm na UGT, foi bom que a UGT colaborasse, participasse e entendesse a importância do momento que estávamos a viver e de alguma forma fosse uma força sindical que, não deixando de usar da sua independência e do sentido critico relativamente ao governo, assegurou um clima de coesão social ao longo destes quatro anos e meio. Em Portugal não vimos um clima de contestação social, salvo o momento que já identifiquei, que vimos acontecer em França, em Espanha, em Itália e sobretudo na Grécia. Isso é uma vantagem grande relativamente aos outros países, o facto de virmos enfrentar estas eleições sabendo que no final o radicalismo político, dando o devido desconto aos papéis que o Dr. António Costa se vai prestar nesta última semana em que está desesperado, mas os radicalismos políticos valerão no máximo 20% dos votos nas próximas eleições. Esta é uma parte da história do nosso processo de recuperação económica, os outros olham para nós não só como um país que recuperou a sua reputação, mas também como um país de gente com bom senso, com uma democracia com algum grau de maturidade, um país previsível; é aceitando a previsibilidade que se constrói politicamente, que se constrói economicamente e essa tem sido uma vantagem de Portugal ao longo dos últimos quatro anos e meio.

O terceiro elemento é a confiança e resulta dos dois primeiros, se existe estabilidade política, se o país é um país que socialmente é coeso, é mais fácil ter confiança em nós. A confiança é um elemento fundamental para qualquer empresa e para qualquer economia, porque a economia é feita do somatório de todas as empresas que têm confiança ou que estão a funcionar em Portugal. A confiança em Portugal atingiu o seu ponto mais alto ao nível do consumidor no último mês desde Março de 2001, há 14 anos. Não deixa de ser extraordinário e motivo de reflexão que depois de termos passado por este período de ajustamento financeiro, a maioria das pessoas está a viver hoje com menos do que tinha há quatro ou cinco anos , porque uns ainda estão a ver o movimento das pensões a ser devolvido, os funcionários públicos ainda estão a viver os primeiros momentos de devolução dos cortes que tiveram e todo o sector privado estão a pagar muito mais impostos do que pagávamos há quatro ou cinco anos. O desemprego está a descer, já foi quase 18%, agora é quase 12%, mas 12% é muito desemprego. São muitas pessoas que querem trabalhar e estão privadas dessa possibilidade e toda a gente sabe que uma pessoa que quer trabalhar e não consegue trabalhar está coarctada de uma parte importante da sua dignidade enquanto pessoa. É extraordinário que sendo esta a realidade da nossa situação política e económica em Portugal, ainda assim os Portugueses, os consumidores, estejam no momento mais positivo de confiança dos últimos 14 anos. Uma das condições fundamentais para ter confiança é não ser enganado, é não viver em ilusões e o trabalho que este governo fez de fazer cair as pessoas na realidade e fazer sair as pessoas da sua zona de conforto acabou por estimular o melhor que as pessoas tinham para dar individualmente e colectivamente para ajudar o país a sair desta crise, e na medida em que nós sentimos que com um Estado menos proteccionista, que pode menos, somos capazes de fazer face aos desafios que temos pela frente, a nível individual, familiar, profissional e empresarial ficamos com mais confiança, se perante uma situação muito difícil eu percebo que não são os outros que me vão proteger, isto é, o Estado, mas eu próprio que tenho de dar conta do recado e com o tempo vou percebendo que vou conseguindo vencer os desafios em que estou envolvido, eu fico mais confiante. Esse sentimento de confiança é o que hoje prevalece na sociedade portuguesa e que ajuda a fazer a diferença na economia, porque é esta confiança que em bom rigor está a ajudar também a nossa economia a crescer, nomeadamente ao nível do consumo privado. Também estamos a viver o ponto mais alto de confiança dos agentes económicos desde 2007, mas aí eu diria que talvez seja mais natural explicar este pico de confiança porque este governo procurou criar um cenário estável e de maior facilidade para concretizar negócios em Portugal, deu prioridade do ponto de vista da redução da carga fiscal às empresas, à Economia e por isso é natural que os agentes económicos sintam hoje em Portugal um quadro para fazer negócio e investir bem mais positivo do que aquele que viviam há sete ou oito anos.

O quarto e último elemento desta receita da recuperação económica, tem a ver com a competitividade, os políticos asseguram a estabilidade, a sociedade assegura a coesão social, há um conjunto de elementos de confiança que ajudam a viragem económica, mas se cada um de nós individualmente e nas suas empresas não fizer aquilo que depende de si para ser competitivo, para ser melhor do que os outros, afinal a economia não funciona.

Eu tenho assistido com alguma distância a esta campanha eleitoral, e muitas vezes me pergunto como é que os portugueses ouvem o sentido fundamental das propostas políticas e económicas que estão em cima da mesa; quase todos nós somos pais, alguns são avós, eu pergunto-vos como é que se educam os nossos filhos melhor para serem competitivos na vida? É aumentando a semanada todas as semanas ou todos os meses? É dizendo que não se passa nada, não há exames, passa com 10 ou com 12 que estamos contentes? É assim que educamos os nossos filhos para estarem preparados para saírem de casa e fazerem face à vida tal como hoje ela se apresenta? Eu tenho cinco filhas mais dois enteados e nunca foi esse o princípio que vi ser seguido em casa dos meus pais e por consequência em minha casa para ajudar os meus filhos a crescer; uma coisa é dar liberdade e dar todas as condições para terem acesso ao melhor que a educação pode dar, outra coisa é vender um mundo de facilidades quando sabemos que é um mundo de adversidades e dificuldades e que os nossos filhos têm de estar preparados para fazer face a essas dificuldades se quiserem ser autónomos, construir a sua casa e abrir asas e voar. Os discursos que estão em confronto do ponto de vista político são estes dois caminhos, o regresso do Estado que protege, os feriados que voltam a ser instalados, menos horas para trabalhar, as empresas que precisam de ser protegidas e acomodadas. Do outro lado um discurso político que, até pela personalidade do primeiro-ministro, é um discurso muito autêntico, pode não ser muito visionário, mas é extraordinariamente autêntico e pragmático. Isto só se vence se continuarmos a ser exigentes connosco próprios. No final o sucesso de Portugal está muito mais nas empresas, nas pessoas e nos portugueses do que no Governo, quem constrói a riqueza, quem investe quem emprega é a sociedade civil, não o governo. Uma visão muito menos voluntarista, menos egocêntrista e muito mais orientada para o governo tratar de ter equilíbrio nas contas públicas, criar um quadro o mais amigo possível para o investimento, assumir as responsabilidades externas, mas no final quem faz realmente a diferença para Portugal ter sucesso não é o Primeiro Ministro, o Vice Primeiro Ministro, o Ministro da Economia, são os portugueses que todos os dias saem de casa para trabalhar, para vencer nas suas vidas, que fazem empresas e que decidem investir em Portugal.

Eu creio que a diferença cultural entre estes dois discursos, o discurso socialista e o discurso da coligação, é muito evidente até na própria atitude dos candidatos e no final acho que os portugueses não estão muito virados para acreditarem outra vez em contos de facilidades; talvez prefiram, mesmo que lhes tenha custado muito ao longo dos últimos quatro anos, um discurso autêntico, realista que apele ao melhor que cada um tem para dar em termos de contribuição para a sociedade do que um discurso outra vez de facilitismos, de ilusões e de displicência relativamente àquilo que é a responsabilidade individual de cada pessoa para levantar Portugal; e a competitividade é isto mesmo, no final o Estado tem feito um esforço importante para se tornar mais simples, mais competitivo e há múltiplos indicadores nos rankings internacionais que dão nota disso mesmo, no ministério da Economia fizemos muito nos últimos quatro anos e meio ao nível da simplificação das regras do investimento, ao nível da simplificação das regras de investimento, do regime jurídico do comércio, serviços e restauração que introduz um princípio de confiança, de comunicação prévia para alguém poder começar uma actividade. Fizemos muito ao nível do investimento, que estava em queda sistemática até 2013, recuperou ligeiramente em 2014, está a recuperar com um pouco mais de força em 2015, fizemos muito ao nível do turismo para desburocratizar e simplificar a vida dos empresários, foram brutais as quedas nos custos de contexto na área do turismo, licenciámos actividades que viviam na clandestinidade e no informalismo, como é o caso do alojamento local e despolitizámos a promoção que hoje é gerida pelo Turismo de Portugal, pelas entidades regionais de turismo e pelos empresários, porque no final se trata de vender é bom ter mais em conta que as brilhantes ideias do ministro da Economia e ter em conta as ideias bastante pragmáticas de quem constrói hotéis e depois quer encher os hotéis de gente. Isso leva-nos a ter menos torneios de Ténis e Rallys, mas a ter mais eventos que não dão espaço ao Ministro ou para o Secretário de Estado, para vender mais um quarto em qualquer hotel. É impossível assumirmo-nos como responsáveis o facto da Easyjet o da Ryanair terem escolhido Portugal e não Espanha para passarem o tempo todo a viajar para aqui e outras coisas  que foram sendo feitas nos últimos anos e que fizeram da economia ligada ao turismo o principal protagonista, sendo às vezes difícil encontrar momentos para eu e o secretário de estado brilharmos um bocadinho, é uma delegação de poderes que demos à economia e vivemos bem com isso.

Ao nível das infra-estruturas dos transportes e da comunicação, fez-se um trabalho muito completo nesta área, beneficiando da enorme capacidade e de enorme talento da equipa do Sérgio Monteiro, não foi só reestruturar as empresas que melhoraram os seus resultados em mais de 300 milhões de euros nos primeiros dois anos desta legislatura, mas também foi depois preparar todos os processos de privatização que foram acontecendo. Isto para além de se ter deixado um trabalho menos mediático, mas fundamental, que foi Portugal ter um plano estratégico de transportes e infra-estruturas simples, com 59 projectos, alguns já implementados e inaugurados e que foi um trabalho tão mal feito que no final foi adoptado por todos os partidos políticos, que permitiu ter uma solução, que hoje em dia é indiscutível, para o Porto de Lisboa, que era um problema que não estava bem resolvido há dois anos e meio e permitiu também encontrar uma solução óbvia para uma coisa que distraia os políticos e os engenheiros e empresas de construção que era a necessidade imperiosa da zona de Lisboa vir a ter um mega aeroporto que pudesse assegurar a competitividade aeroportuária do país; descobrimos que se calhar não era grande ideia convencer os outros a investir 2 ou 3 ou 4 mil milhões de euros num aeroporto, talvez fosse mais útil fazer um bom aproveitamento da Portela que ainda pode crescer mais 20 ou 30% relativamente à realidade actual e já agora, como temos uma base aérea no Montijo que com um pequeno investimento pode assegurar o espaço desta concessão aeroportuária para mais 50 anos, encerramos a discussão do aeroporto de Lisboa desta maneira simples; se calhar não dá tanto trabalho às construtoras, se calhar não há tantos engenheiros e arquitectos a enriquecer, não há auto estradas e TGV's para levar as pessoas para 30km de Lisboa, continuam a apanhar um avião na zona de Lisboa e com esta solução deixamos também um trabalho feito que está assumido pelas câmaras de Lisboa e do Montijo. O plano estratégico de transportes e infra-estruturas que este governo aprovou no dia 3 de Abril de 2014 é o plano estratégico de transportes e infra-estruturas do Dr. António Costa para os próximos cinco anos, na eventualidade de ele ser o próximo Primeiro-Ministro e isto é muito importante, porque se há coisa que os contribuintes portugueses agradecem, depois do que vivemos nos últimos anos, é que regressem com cada eleição legislativa primeiros ministros com ideias magníficas relativamente à construção de infra-estruturas em Portugal e com uma redefinição de obras, que, como aquilo que se define em qualquer empresa, devem obedecer a algum critério de espartanismo, de respeito pelo dinheiro utilizado, que é sempre dinheiro dos contribuintes, e acima de tudo deve ser úteis e eficientes para as pessoas que as utilizam.

Como consequência de tudo isto há um trabalho feito pelo governo e pelo ministério da Economia, nestes quatro anos e meio, mas o papel principal no final em termos de competitividade é das empresas. Por onde é que se mede a nossa competitividade hoje em dia? Importamos menos do que exportamos, estamos a importar mais do que importávamos em 2008 e 2009, a grande reforma que aconteceu em Portugal foi uma reforma de mentalidade e de capacidade no sector privado que substituíram o paradigma que tinham de viver confortavelmente num mercado de 10M de pessoas, por outro que é viver permanentemente numa zona de desconforto e fazer do mundo a sua casa. As exportações portuguesas cresceram quase 40% de 2009 para o primeiro semestre de 2015 e continuam a crescer, estão a crescer 6% nestes primeiros 7 meses de 2015 e pela primeira vez em 70 anos de história, desde os tempos da 2ª Guerra Mundial e do Dr. António Oliveira Salazar, Portugal é competitivo. Não pelas razões da 2ª Guerra Mundial, nós exportámos mais do que importámos, bens e serviços, em 2013, em 2014 e nos primeiros 7 meses de 2015. A nossa balança comercial melhorou 500 milhões de euros nestes primeiros 7 meses do ano relativamente àquilo que era a realidade em 2014. Parece pouca coisa termos uma economia que exporta mais do que importa, mas é a primeira vez que isto acontece desde 1940, é um dado novo, é uma mudança estrutural da nossa economia que ainda não está completa, 41 ou 42 ou 43% do PIB em exportações ainda é pouco, nós temos que chegar aos 50/55/60%, mas este é o principal legado de reforma e é uma reforma que é mérito e obra do sector privado, embora eu creia que a diplomacia económica e o trabalho político tenha ajudado muito a abrir novos mercados para as pequenas e médias empresas.

Este modelo de crescimento que estamos a viver está assente nas exportações que estão a crescer 6%, no investimento que está a recuperar 4% este ano e depois num aumento do consumo, que já não é tão gradual como isso, de 3%. Todos estes elementos com esta articulação dão uma balança comercial positiva, isto é, este modelo económica que estamos a viver de recuperação é sustentável porque não nos estamos a endividar mais no exterior como aconteceu na década de 80, na década de 90 e na década passada sempre que Portugal cresceu, chegámos a crescer 1,7% em 2010 com um défice das contas externas de 15 mil milhões de euros, agora estamos a crescer 1,6% no primeiro semestre com contas externas positivas. Também nesta matéria eu acho que é preciso proteger este modelo e as propostas que o Partido Socialista está a apresentar nesta campanha, fabricadas pelo Professor Mário Centeno, cheias de folhas de cálculo, estão erradas, basta ter um pouco de bom senso para perceber que aquelas folhas de cálculo, que ele mostra com tanto orgulho sempre que o convidam para uma televisão, estão erradas, vão dar disparate se alguma vez tivesse oportunidade de serem aplicadas como proposta política depois do dia 4 de Outubro. É que o partido socialista propõem uma redução da TSU nas pessoas e nas empresas para financiar consumo, isto é, vamos lá diminuir as receitas da segurança social que asseguram a ainda assim difícil sustentabilidade das pensões actualmente em pagamento para fomentar o consumo, mas o consumo já está a crescer 3%, se voltarmos a ter um modelo em que o consumo cresce não 3 mas 7 ou 10% e as exportações crescem 4 ou 5% nós voltamos a regressar ao modelo económico que vigorou em Portugal de 2000 a 2011 e que nos conduziu ao pedido de assistência financeira, porque o problema que nós tivemos financeiro em 2011, não foi sobretudo um problema financeiro, foi sobretudo um problema económico, Portugal registou o 3º crescimento económico mais pobre daquela década e foi por a Economia não crescer que no final se geraram desequilíbrios financeiros que nos levaram a pedir a bancarrota. É por isso que eu digo que este modelo que pretende voltar a fazer do consumo privado o principal driver da economia, dando "generosamente" rendimento às pessoas, prometendo facilidades e desarticulando a forma como devem ser geridos estes três motores da economia é por isso que eu digo que a aplicação desta forma voltaria a fazer Portugal regressar a momentos de crescimento forte no princípio, mas de enorme desequilíbrio das nossas contas externas e das nossas contas públicas. Um caminho que passado alguns anos não apresentaria nada de novo relativamente ao que foi o legado do Eng. José Sócrates.

Aquilo que é muito importante proteger nos próximos quatro anos do ponto de vista económico é este legado cultural que está a ajudar a recuperação económica e a dar a Portugal um modelo de recuperação económica que é sustentável; todos nós gostaríamos que a economia crescesse 3 ou 4% ao ano, mas ele cresce aquilo que é possível em função do capital que existe em Portugal, do investimento que conseguimos atrair, da produtividade e da competitividade das empresas portuguesas, neste momento é 1,6%, para o ano se as empresas portuguesas estiverem mais competitivas será mais de 2%, mas no final é sustentável, com políticas públicas que procuram posicionar o Estado como, crescentemente, um parceiro da economia privada. É dizendo aos trabalhadores públicos que em vez de trabalharem 40 horas vão passar a trabalhar 35 horas que fazemos da administração pública cada vez mais uma parceira do sector privado onde toda a gente trabalha pelo menos mais de 40 horas? É entendível por quem trabalha pelo sector privado e que não tem horas para ajudar as suas empresas a serem competitivas todos os dias que ao mesmo tempo se dêem sinais à administração pública de que podem viver num universo alheio à competitividade e que estão abertos horas que nem sequer chegam para aqueles que estão no sector privado têm e precisam de trabalhar com essa administração pública enquanto parceiros? Os portugueses não gostam destas propostas facilitistas, há uma diferença cultural grande das propostas que estão em jogo no próximo dia 4 e que também passa pela atitude dos governantes, o país dispensa voltar a ter ministros da economia saídos directamente da academia, que nunca tendo tido o destaque necessário dentro das empresas chegam ao Ministério da Economia e acham-se uns brilhantes empreendedores e com o dinheiro dos contribuintes e influenciando os comités de crédito têm montes de ideias que no final resultam nos crescimentos que nós conhecemos de 2005 a 2011. É preferível ter gente no governo que sabe que ser ministro é uma missão e que se cria riqueza e se cria emprego é nas empresas, aqui estamos para servir, porque que faz a diferença verdadeiramente são as pessoas que estão a trabalhar nas empresas e esta é uma atitude importante que eu acho que é preciso proteger na governação depois do dia 4 de Outubro. É bem preferível termos um Primeiro Ministro que é uma pessoa simples, autêntica, teimoso mas que apela àquilo que é o essencial na sociedade portuguesa para zelar por um ambiente competitivo, uma pessoa que marcou a diferença em termos de imprimir uma cultura na política independente e não promíscua com os negócios, uma proposta política que não tem pretensões visionárias, não pretende criar homens novos em Portugal, pretende apenas deixar que as pessoas façam a sua vida, se apropriem mais da riqueza do seu trabalho e provem que são competitivas. É preferível uma proposta política com estas características do que voltarmos aos tempos em que os primeiros ministros depois de serem ungidos pelo Dr. Mário Soares acham que têm o direito divino de governar Portugal e de produzir as mudanças sociais que entendem e que pegam no dinheiro dos contribuintes, 1 ou 2 ou 5 mil milhões não interessa, tudo para eles é pouco, para potenciarem programas que inventam nos gabinetes, nos centros de estudos e nas folhas de cálculos e depois se as coisas não dão certas, que é quase sempre a realidade, cria-se um buraco nas contas, na vida dos portuguesas, pagam-se mais impostos. Esta atitude de displicência relativamente aos portugueses e ao dinheiro dos contribuintes é uma ideia que merece ser penalizada no próximo dia 4 de Outubro.

Quero dizer que me sinto muito orgulhoso destes dois anos e meio que fizemos no governo, com uma equipa fantástica. Foi a primeira condição, foi funcionarmos como uma boa equipa. Sinto muito orgulho de todo o contributo que demos ao longo destes últimos dois anos e meio, sinto muito orgulho de ter trabalhado de forma mais próxima com o Dr. Paulo Portas e com o Dr. Pedro Passos Coelho, que não conhecia e fiquei a admirar muito e acho que é uma enorme vantagem, uma enorme garantia política para Portugal que a dupla política Pedro Passos Coelho e Paulo Portas possa continuar depois do dia 4 de Outubro com uma maioria absoluta.

 Transcrição da palestra de António Pires de Lima (*)