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POLÍTICA

"O Meu Avô Luís"(*)

2016-04-04 | Sofia Pinto Coelho

Uma coisa que pensei que podia contar sobre a feitura deste livro é contar como começou. Este livro começou com as partilhas depois da morte do meu pai, em que fiquei com três caixas de películas de Super 8, das 7 horas de filmes acabei por fazer uma compilação de 20 minutos narrada pelos meus tios. Por aqui ficou tudo, até que apareceu uma colega da SIC que estava a tirar um curso na faculdade de Letras e que aparece com um livro sobre o cinema no tempo de Salazar e comentou comigo que tinha uma família muito estranha, desde a minha mãe, padrasto, um primo do PNR até ao meu avô realizador de cinema. Eu fiquei muito surpreendida, não sabia que o meu avô tinha sido realizador de cinema. O Luís Pinto Coelho, meu avô adorava cinema e endividou-se até à ponta dos cabelos a produzir um filme ícone do Estado Novo chamado Chaimite, todo filmado em Moçambique a glorificar os feitos dos militares portugueses em Moçambique. Eu expliquei que ele não era realizador, era professor e tinha tido uma aventura na vida quando foi para embaixador e se apaixonou.

Depois fiz uma descoberta que é que a qualquer pessoa a quem se fale de uma história de amor, fica encantada, eu há 25 anos que sou jornalista e que só faço histórias de crimes, percebi que há um ramo muito mais interessante que são as histórias de amor e se essas histórias são trágicas ainda melhor. A fase seguinte foi como é que ia convencer os directores da SIC a fazer qualquer coisa com os filmes. Eu propus fazer uma história de um homem de direita no 25 de Abril. Iria ser uma grande reportagem, foi aceite e depois acabou por dar um filme com mais orçamento. Só faltava a família, eu tinha o histórico do livro da minha mãe que escreveu um livro que fez com que os seus irmãos deixassem de lhe falar durante cerca de 5 anos. Comecei a ligar aos meus tios e tive de garantir que não era nada para a televisão, porque a televisão é de facto cada vez mais "lixo". O primeiro diz que sim, telefono ao segundo e ele diz que sim também, eu penso que eles esperavam uma biografia mais clássica, o terceiro tio também concorda e fica a faltar a Kit, que é americana. Aí é que foi a sorte grande, porque a história do meu avô podia ser contada só pelos filmes, descrevendo o homem do Estado Novo, mas a história de amor é que a transforma numa história singular e a Kit, americana liberal, modelo, sem nada para fazer, disse logo que sim. A determinada altura ela dizia que o documentário se ia chamar "Luís and me" e não só disse logo que sim e de muitos pontos de vista é uma pessoa encantadora por essa frescura, acho que foi isso que o meu avô viu nela, não tem as nossas limitações mentais e comportamentais, não só me disse que sim como me entregou as cartas de amor e aí é que eu tive a grande revelação. As cartas de amor têm uma continuidade, uma beleza de escrita, uma transparência, uma dor e uma paixão que o tornaram uma pessoa encantadora, até aí ele era para mim um senhor que saiu daqui em 1961 e que aparecia de vez em quando e me dava muitos presentes.

Foi assim que se construiu isto, a parte de escrita houve algumas pessoas que me ajudaram. O processo das ideias tem esse encanto, as ideias não aparecem embrulhadas numa caixa. Uma pessoa vai apalpando, é o feedback das pessoas ao longo das semanas e dos meses que nos vai ajudando a esculpir a forma do objecto, sendo que para mim foi particularmente difícil, os jornalistas estão formatados para olhar para os factos, escrever um livro é uma coisa completamente diferente, o director dizia que era preciso ouvir a voz da neta. Esse equilíbrio é muito difícil, eu não tenho voz nem sentimentos e no meio da minha família muito inteligente, eu sou uma pessoa que anda aqui, apenas junto umas palavras. A voz da neta teve várias versões até chegar à fase em que se falam de opiniões e convicções politicas, eu não penso em nada disso, tento ajudar os outros com o jornalismo, essa é a minha missão na vida.

Transcrição da palestra de Sofia Pinto Coelho. (*)